Marcadores

domingo, 4 de outubro de 2026

4 a 26 de setembro de 2026 - Itália: Toscana, Puglia, Matera, Pompeia e Roma

Este é o primeiro relato de viagem elaborado com o uso da IA. Diariamente, eu falava com o ChatGPT o que tínhamos feito, e elaborávamos o relato do dia, com pesquisas complementares àquilo que mais nos chamou a atenção. Por isso o texto ficou muito maior e também mais rico de informações. No retorno, a IA me ajudou na construção da postagem e elaborou o mapa acima, que ilustra o percurso e serve de guia rápido para o texto. 

4 e 5 de setembro de 2026 — Viagem e chegada à Toscana

Saímos de Brasília no dia 4 de setembro às 12h30m, em um voo da Latam com destino a São Paulo. De lá, embarcamos às 18h para Roma, onde chegamos no dia seguinte às 10h15m.

No aeroporto de Fiumicino, fomos recebidos pelo grupo organizado por Antonello Monardo, responsável pela excursão pela Toscana. Seguimos então para a casa onde ficaríamos hospedados, situada no interior da Toscana, perto da cidade de Monte San Savino, chegando por volta das cinco horas da tarde. 

Durante toda a semana, ficamos hospedados no Agriturismo Boschi Salviati, uma propriedade dos mesmos donos da vinícola San Luciano, situada nos arredores de Monte San Savino. Construída no estilo tradicional das casas de campo toscanas, a residência é ampla e muito confortável, com decoração rústica e acolhedora. Possui seis quartos — dois no térreo e quatro no andar superior —, além de uma espaçosa sala de convivência e uma cozinha bem equipada.

Na área externa, há uma piscina, onde aproveitamos alguns momentos de descanso, e uma sauna, bastante utilizada pelo grupo ao longo da semana. A propriedade dispõe ainda de lavanderia e é cercada por bosques, o que lhe proporciona uma atmosfera de tranquilidade e contato permanente com a natureza. Em meio à vegetação destaca-se um carvalho centenário, que torna a paisagem ainda mais especial. Foi uma hospedagem muito agradável e um lugar perfeito para servir como base para nossos passeios pela Toscana.

Depois de nos instalarmos, tivemos nosso primeiro jantar, preparado pelos cozinheiros Fábio e Paola, que nos acompanhariam durante a estadia, preparando uma refeição diferente a cada noite.

O jantar foi uma excelente introdução à culinária toscana. Entre as entradas, foram servidos pappa al pomodoro, abobrinha recheada, melanzane com carne, tomate recheado e duas bruschettas: uma com molho de tomate e outra com salmão. Como prato principal, experimentamos salsiccia con fagioli, uma combinação de linguiça com feijão muito saborosa.

Foi uma primeira noite muito agradável e um ótimo começo para nossa experiência na Toscana.

6 de setembro de 2026 — Arezzo, Fattoria San Fabiano e Cortona

Nosso primeiro dia de passeios começou por Arezzo, uma cidade muito bonita e de grande riqueza histórica. Visitamos a Catedral de São Pedro e São Donato, o Duomo de Arezzo, situada na parte mais alta da cidade. Sua construção teve início no século XIII e se prolongou por diferentes períodos. Entre as obras mais importantes conservadas em seu interior está o afresco de Santa Maria Madalena, pintado por Piero della Francesca por volta de 1459.

Também percorremos uma feira de antiguidades e artesanato e encontramos a cidade inteiramente mobilizada pela Giostra del Saracino, sua principal celebração histórica. A competição, realizada na Piazza Grande, reúne os quatro bairros tradicionais de Arezzo. Cada um deles é representado por dois cavaleiros que, empunhando uma lança, galopam em direção ao Buratto, uma figura giratória que representa o “Re das Índias”, procurando atingir o alvo colocado em seu escudo. A pontuação depende do ponto atingido, e o bairro vencedor recebe a Lança de Ouro.

Além da competição propriamente dita, a Giostra envolve desfiles, músicos, porta-bandeiras e centenas de participantes vestidos com trajes históricos. Quando entramos no Duomo, os cavaleiros e outros integrantes da celebração estavam recebendo uma bênção.  Não assistimos à disputa, pois ela aconteceria somente no final da tarde, mas pudemos acompanhar parte dos rituais que a antecedem e sentir o envolvimento de toda a cidade com a festa.


De Arezzo, seguimos para a Fattoria San Fabiano. Fizemos uma visita à propriedade e participamos de uma degustação de vinhos, acompanhada por um pequeno almoço. Tanto os vinhos quanto a comida estavam excelentes, e a experiência foi uma oportunidade muito agradável de conhecer um pouco mais da produção vinícola e da gastronomia locais.

Depois, partimos para Cortona, cidade de origem muito antiga que ainda conserva trechos de suas muralhas etruscas. Na parte alta da cidade, visitamos a Igreja de San Niccolò, ligada à confraria instituída por São Bernardino de Siena em 1440. A igreja conserva importantes obras de Luca Signorelli, pintor renascentista nascido em Cortona. A principal delas é um estandarte processional pintado nas duas faces, por volta de 1510: de um lado, o Compianto sul Cristo morto; do outro, a Madonna col Bambino e i santi Pietro e Paolo. Há também um grande afresco da oficina de Signorelli representando a Virgem com o Menino e oito santos.

Nas proximidades, conhecemos a pequena Igreja de San Cristoforo, consagrada em 1192 e considerada uma das mais antigas de Cortona.

Em seguida, visitamos o Eremo Le Celle, também conhecido como Convento delle Celle, um dos primeiros assentamentos franciscanos. Fundado por São Francisco de Assis em 1211, o convento está situado em meio à natureza, nos arredores de Cortona. É um lugar muito bonito, marcado pelo silêncio, pela espiritualidade e pela integração das construções de pedra com o bosque e o curso d’água que atravessa a área. A região reúne outros lugares fundamentais da trajetória de São Francisco, como o Santuário de La Verna e a cidade de Assis.

Depois, entramos no centro histórico de Cortona e caminhamos por suas ruas e praças. Passamos pela Piazza Signorelli, onde fica o Teatro Signorelli, utilizado como cenário em uma das sequências do filme A Vida é Bela. Tanto o teatro quanto a praça homenageiam Luca Signorelli, cuja obra abriu caminhos e exerceu influência sobre artistas posteriores, entre eles Michelangelo.

Continuamos o passeio pelo centro histórico, passando por suas praças e edifícios antigos, até chegarmos a um mirante de onde pudemos apreciar uma bela vista da paisagem ao redor da cidade.

No fim do dia, retornamos à casa para outro jantar preparado por Fábio e Paola. Começamos com uma seleção de queijos e embutidos locais. Provamos dois tipos de pecorino, um mais jovem e outro mais maturado, além de vários embutidos, entre eles copa e finocchiona. Esta última, um salame típico da Toscana aromatizado com sementes de funcho, foi a de que mais gostamos.

Depois, foi servido um saboroso pappardelle al ragù. Encerramos a refeição à maneira toscana, com cantucci mergulhados no Vin Santo.

7 de setembro de 2026 — Orbetello e Monte Argentario

Fizemos um passeio até o litoral da Toscana. O trajeto até Orbetello levou aproximadamente duas horas. Passamos inicialmente pela cidade e seguimos pela ligação que atravessa a laguna em direção a Monte Argentario, um antigo território insular hoje unido ao continente e conhecido por seus portos e belas praias.

Depois de conhecermos um pouco da região portuária, retornamos a Orbetello para almoçar no restaurante Pescatori di Orbetello. O almoço tinha um menu composto por várias etapas, permitindo que experimentássemos diferentes pratos ligados à tradição pesqueira local.

Começamos com uma versão de pappa al pomodoro coberta com um pouco de bottarga ralada.

Depois, provamos uma parmigiana di melanzane com peixe defumado e uma mousse de peixe, que também estava muito saborosa.

Outra entrada foi a tainha frita, servida com molho tártaro.

Entre os pratos principais, havia ravióli recheado com ricota e espinafre e uma carbonara di mare preparada com peixe defumado.

Pudemos experimentar um pouco de tudo, acompanhado pelo vinho branco da casa. Foi uma refeição muito variada e uma oportunidade interessante de conhecer diferentes formas de utilizar os pescados da região.

Após o almoço, voltamos a Monte Argentario e passamos a tarde em um beach club. A praia nos surpreendeu muito. Além de bonita e de ter águas transparentes, a temperatura do mar estava bastante agradável, lembrando as águas do Nordeste brasileiro. Foi a primeira praia europeia que conhecemos em que a água não estava fria.

Ao final da tarde, retornamos à casa para mais um jantar preparado por Fábio e Paola. Dessa vez, eles serviram um arrosto misto, com carne de porco, coelho e galinha-d’angola. O prato foi acompanhado por diferentes contorni, como são chamados na Itália os acompanhamentos: espinafre, funcho, batatas e pimentão vermelho.

8 de setembro de 2026 — Azeite, caça às trufas e vinhos da San Luciano

Começamos o dia com uma visita ao Frantoio Del Pasqua, em Monte San Savino. Conhecemos as instalações e recebemos explicações sobre as diferentes etapas da produção do azeite, desde o recebimento das azeitonas até a extração e o armazenamento do produto. Ao final, participamos de uma degustação de azeites, uma experiência ao mesmo tempo instrutiva e muito saborosa.


Em seguida, participamos de uma caça às trufas. Fomos até um bosque da região e acompanhamos o trabalho do cão treinado para localizar as trufas escondidas sob a terra. Como estávamos no verão, a variedade encontrada foi a trufa-negra de verão. Durante a caminhada, o cachorro localizou diversas trufas, totalizando aproximadamente cem gramas. Foi muito interessante observar de perto como funciona a procura e participar de uma atividade tão tradicional da região.

Depois da caça, voltamos para a casa, onde foi preparado um almoço com as próprias trufas que havíamos acabado de encontrar. Começamos com algumas entradas, entre elas torradas cobertas com trufas.

Em seguida, foi servida uma massa também preparada com trufas

e uma sobremesa de frutas.

A refeição foi acompanhada pelo Resico, vinho branco da vinícola San Luciano, produzido nas colinas de Monte San Savino. Foi especialmente interessante comer pratos preparados com as trufas que tínhamos ajudado a encontrar poucas horas antes.

Após o almoço, visitamos a vinícola San Luciano, cujos proprietários também são donos da casa em que estamos hospedados. Conhecemos as instalações da propriedade e participamos de uma degustação de vários vinhos, acompanhados por queijos locais.

Ao final da tarde, retornamos à casa para descansar um pouco. Depois de tantas degustações e experiências gastronômicas, todos já estavam bastante satisfeitos quando chegou a hora do jantar. Ainda assim, Fábio e Paola prepararam mais uma refeição, começando com algumas entradas e seguindo com dois risotos: um de aspargos e outro com ragù de carne.

Foi um dia inteiramente dedicado aos sabores da Toscana: azeites, trufas, vinhos, queijos e, para encerrar, mais um jantar preparado na casa. Sem dúvida, foi também o dia de maior comilança da viagem até então.

9 de setembro de 2026 — Montepulciano, Pienza e abertura da Sagra della Porchetta

Saímos cedo de casa e seguimos primeiro para Montepulciano. Logo na entrada da cidade, encontramos uma grande escultura de rinoceronte ligada ao universo artístico de Salvador Dalí, instalada como parte do projeto cultural e expositivo desenvolvido no Palazzo Bracci.

Nossa primeira visita foi à Cantina Ercolani, onde fizemos um longo e interessante percurso pela chamada Città Sotterranea. Trata-se de uma extensa rede de ambientes medievais localizada sob sete antigos palácios nobres do centro histórico. O caminho passa por adegas com grandes barris de carvalho, antigas oficinas, poços, esconderijos utilizados pelos gibelinos e duas autênticas tumbas etruscas.

Ao final, participamos de uma degustação dos vinhos da Ercolani. Achamos os vinhos bons, embora nenhum deles tenha nos despertado vontade suficiente para comprar alguma garrafa.

Depois, continuamos a pé pelo centro de Montepulciano. Visitamos a Igreja de Sant’Agostino, cuja construção teve início no século XIII e cuja fachada combina elementos góticos e renascentistas, com participação do arquiteto Michelozzo. Nas proximidades fica a curiosa Torre de Pulcinella, com um autômato que bate as horas em um sino. Na verdade, não observamos esse sino, mas uma das nossas amigas de viagem viu e fotografou.

Subimos pelas ruas inclinadas da cidade, fazendo algumas paradas nos mirantes encontrados pelo caminho, até chegarmos à Piazza Grande, situada na parte mais alta de Montepulciano.


Ali visitamos a Catedral de Santa Maria Assunta. Seu interior conserva diversas pinturas importantes, entre as quais se destaca o monumental Tríptico da Assunção, pintado por Taddeo di Bartolo em 1401. 

De Montepulciano, seguimos em direção a Pienza. Antes de entrar na cidade, visitamos o Caseificio Cugusi, onde participamos de uma degustação de queijos produzidos na região. Experimentamos desde queijos frescos e ricota até variedades semicuradas e maturadas, entre elas o Pecorino Gran Riserva, o pecorino com trufas e o Pecorino Foglie di Noce. Este último passa por um processo tradicional de maturação sob folhas de nogueira, que amacia a massa e intensifica seu sabor.

O Caseificio Cugusi está situado em um lugar muito bonito, cercado pela paisagem da Val d’Orcia.

Pouco antes de chegarmos a Pienza, fizemos ainda uma breve parada no Palazzo Massaini, uma propriedade histórica com origem em uma fortaleza medieval do início do século XIII. Atualmente, o lugar reúne hospedagem, produção de vinhos e azeites e uma bela paisagem de vinhedos e olivais.

Em Pienza, entramos no centro histórico e visitamos inicialmente a Igreja de San Francesco, construída no século XIII e um dos edifícios remanescentes da antiga vila medieval de Corsignano, como a cidade se chamava antes da transformação promovida pelo papa Pio II.

Depois, caminhamos sem pressa pelas ruas e vielas de Pienza. 

Voltamos à casa e, por volta das 20h, saímos para Monte San Savino, onde participaríamos do jantar de gala que abriu oficialmente a 62ª edição da Sagra della Porchetta.

A celebração ocorreu no conjunto formado pelo Palazzo del Monte, atual sede da administração municipal, seu jardim suspenso e as Logge dei Mercanti. Essas loggias, construídas no século XVI, funcionavam originalmente como um espaço coberto para a realização de mercados. Para o jantar, foram instaladas várias mesas nos diferentes ambientes.

Nossa mesa ficou na área atendida por Aldo Iacomoni, na Logge dei Mercanti. Aldo é um dos mais conhecidos mestres porchettai de Monte San Savino e mantém um estabelecimento um pouco acima daquele local. Outra parte dos convidados ficou em mesas atendidas por outro cozinheiro, dentro do Palazzo comunale.

Quando chegamos, encontramos uma grande mesa coberta por porchettas, presunto de Parma e pães para preparar pequenos sanduíches. Imaginamos que aquele fosse o jantar e, como estava tudo muito gostoso, repetimos duas vezes. Para nossa surpresa, os pratos foram então trocados e anunciaram que a refeição propriamente dita ainda iria começar. Quase ninguém acreditou.

Foram servidos inicialmente dois primi piatti. O primeiro foi um ravióli com molho de tomate e mussarela de búfala.

Depois veio um espaguete à bolonhesa.

Durante toda a noite, havia vinho e água à vontade nas mesas.

Em determinado momento, a refeição foi interrompida para os discursos e a cerimônia de entrega do prêmio anual da Pro Loco de Monte San Savino, associação dedicada à promoção da cidade e de suas tradições. A homenageada de 2026 foi Cristina Manetti, assessora de Cultura e Turismo Cultural da Região Toscana, reconhecida por seu trabalho de valorização do patrimônio histórico, artístico e cultural da região. Houve pronunciamentos do prefeito, de representantes da administração municipal e dos dirigentes da Pro Loco.

Depois da premiação, o jantar continuou com o secondo piatto: carne de porco assada, acompanhada por batatas.

E, quando todos já estavam completamente satisfeitos, ainda foi servida a sobremesa. Foi uma quantidade impressionante de comida, mas tudo estava excelente e a noite foi muito animada.

O jantar terminou em torno da meia-noite. Antes de voltarmos para casa, Antonello, que possui uma residência em Monte San Savino, nos levou para um breve passeio noturno pela cidade.

Entramos no Palazzo del Monte e chegamos ao belo jardim suspenso situado na parte posterior do edifício, de onde se tem uma vista muito bonita da região. Depois, caminhamos até o Cisternone, que já estava fechado, mas pudemos conhecer a praça ao redor.

Continuamos pelas pequenas ruas do centro histórico e passamos pelo curioso Palazzo dei Topi d’Argento, decorado com pequenos ratos metálicos. Por fim, Antonello nos mostrou a casa onde mora, antes de retornarmos para nossa hospedagem.

10 de setembro de 2026 — Chianti, San Gimignano e Siena

Saímos de casa por volta das dez horas da manhã e seguimos diretamente para a Tenuta di Arceno, vinícola situada em Castelnuovo Berardenga, na parte mais meridional da região do Chianti Classico.

A propriedade é muito bonita, cercada pelas colinas e pelos vinhedos característicos da paisagem toscana. Participamos de uma degustação de seis vinhos da casa — dois brancos e quatro tintos. A apresentação foi muito boa e instrutiva, permitindo conhecer melhor as características dos vinhos e da produção da propriedade.

De lá, seguimos para San Gimignano. Tínhamos apenas cerca de uma hora para conhecer a cidade. Havia chovido bastante, mas tivemos sorte: quando chegamos, a chuva parou, embora o céu tenha permanecido nublado, e pudemos caminhar tranquilamente pelo centro histórico.

Seguimos pelas ruas antigas até a Piazza della Cisterna, uma das praças mais conhecidas da cidade, cercada por construções medievais e marcada pela cisterna de pedra situada em seu centro.

Depois enfrentamos uma longa fila para tomar sorvete na Gelateria Dondoli, sorveteria artesanal internacionalmente premiada e uma das atrações mais famosas de San Gimignano. Apesar da espera, valeu a pena. Escolhemos os sabores pistache e nocciola, e o sorvete estava muito gostoso.

Nossa última cidade do dia foi Siena. Depois de estacionarmos nas proximidades do centro histórico, começamos a visita pela Basilica Cateriniana di San Domenico. A igreja, também conhecida simplesmente como Basílica de San Domenico, está profundamente ligada à vida de Santa Catarina de Siena, uma das padroeiras da Itália.

A basílica é muito ampla e imponente, com um interior marcado pela austeridade da arquitetura gótica e por belos vitrais ao fundo. Entre as relíquias de Santa Catarina conservadas no local estão sua cabeça e um de seus dedos.

Em seguida, continuamos a caminhada até a Piazza del Campo, a grande praça central de Siena. É ali que acontece o famoso Palio di Siena, tradicional corrida de cavalos disputada pelos bairros históricos da cidade. A prova é realizada no percurso que contorna a praça.

Depois, seguimos para o Duomo de Siena. Compramos o ingresso para a visita básica, que permitia conhecer a nave da catedral e a Libreria Piccolomini. Não tivemos tempo de fazer o percurso mais completo, que inclui outras partes do complexo, mas mesmo a visita mais simples foi impressionante.

O interior do Duomo é extraordinariamente rico, com mármores de diferentes cores, altares, esculturas, vitrais e inúmeras obras de arte. Visitamos também a Cappella della Madonna del Voto, dedicada à Virgem e especialmente importante para a devoção dos habitantes de Siena.

A Libreria Piccolomini foi outro ponto alto da visita. Construída no final do século XV para preservar a memória e o acervo de Enea Silvio Piccolomini, o papa Pio II, a biblioteca impressiona pelas pinturas que cobrem inteiramente suas paredes e seu teto. É um ambiente pequeno, mas de grande beleza e riqueza de detalhes.

Depois de sairmos do Duomo, ainda caminhamos um pouco pelas ruas de Siena. Encontramos o restante do grupo em uma cafeteria e, em seguida, iniciamos o caminho de volta para casa.

Embora as distâncias em quilômetros não sejam muito grandes, os deslocamentos pela região acabam demorando bastante, pois boa parte do percurso é feita por estradas estreitas e sinuosas. Por isso, chegamos já bem tarde.

À noite, Fábio e Paola prepararam mais um jantar para o grupo.

Como entrada, serviram a tradicional ribollita, um dos pratos mais característicos da chamada cucina povera toscana. A sopa aproveita pão amanhecido, feijão e diversos legumes. Seu nome significa “fervida novamente”, pois tradicionalmente era preparada e depois reaquecida, muitas vezes no dia seguinte, tornando-se ainda mais densa e saborosa. Como prato principal, foi servido roast beef acompanhado de fagiolini, as vagens italianas. Tudo muito gostoso. Acompanhamos com alguns dos vinhos que havíamos comprado durante a viagem.

11 de setembro de 2026 — Perugina e os caminhos de São Francisco em Assis

Começamos o dia seguindo em direção a Perugia, onde visitamos a Casa del Cioccolato e a fábrica da Perugina, localizada nos arredores da cidade. Fizemos um percurso pelo museu e pela área de produção, conhecendo um pouco da história da empresa e do processo de fabricação dos chocolates.

Como toda a explicação foi feita em italiano, acabamos perdendo alguns detalhes, mas a visita ainda assim foi bastante interessante. Chamou nossa atenção a forte ligação dos italianos com a Perugina e, especialmente, com os Baci, um dos produtos mais conhecidos da marca.

Durante a visita, vimos antigas embalagens, anúncios e campanhas publicitárias. Uma das histórias mais curiosas foi a do programa radiofônico I Quattro Moschettieri, patrocinado pela Buitoni-Perugina na década de 1930. As embalagens dos produtos traziam figurinhas com personagens do programa, que podiam ser reunidas e trocadas por prêmios. A campanha alcançou enorme sucesso, provocou uma verdadeira febre de colecionismo e aumentou muito as vendas. Depois das reclamações das empresas concorrentes, o governo acabou proibindo, em 1937, os concursos baseados na distribuição e coleção de figurinhas.

Ao final da visita, participamos de uma degustação. Até então, não conhecíamos bem os Baci Perugina. São chocolates de formato muito característico, com um pedaço de avelã, encimado por uma avelã inteira e coberto por chocolate. Dentro de cada embalagem há ainda um pequeno papel com uma frase, normalmente relacionada ao amor ou à amizade. Achamos os chocolates muito gostosos. Atualmente, a Perugina faz parte do grupo Nestlé.

Não chegamos a entrar no centro histórico de Perugia. Da fábrica, seguimos diretamente para Assis.

Começamos nosso passeio pela parte alta da cidade, nas proximidades da Basilica di Santa Chiara. A igreja estava fechada, mas caminhamos pelas ruas da região e conhecemos outros lugares ligados à história de São Francisco.

Visitamos a Chiesa Nuova, que é uma igreja construída em 1615 sobre os restos de um edifício que, segundo a tradição, teria sido a casa de Pietro di Bernardone, pai de São Francisco. No interior existe inclusive um pequeno espaço onde Francisco teria sido mantido preso pelo pai depois de distribuir aos pobres parte dos bens da família.

Ao lado da igreja, em uma pequena passagem, encontra-se o Oratorio di San Francesco Piccolino. A tradição identifica esse local como o lugar onde São Francisco teria nascido. O pequeno oratório conserva uma antiga porta e vestígios de afrescos medievais.

Mais adiante, chegamos à Piazza del Comune e visitamos a Igreja de Santa Maria sopra Minerva. Sua fachada preserva seis grandes colunas coríntias pertencentes a um templo romano, construído no século I. Em 1539, a parte interna do antigo templo foi transformada em igreja católica e, no século XVII, recebeu a rica decoração barroca que vemos atualmente. O contraste entre a fachada romana e o interior barroco torna o lugar especialmente interessante e bonito.

Fizemos então uma parada rápida para comer um panino e um pedaço de pizza.

Depois, continuamos descendo pelas ruas de Assis até chegar à Basilica di San Francesco.

Visitamos tanto a Basílica Inferior quanto a Basílica Superior, duas igrejas construídas uma sobre a outra. A Basílica Inferior, iniciada em 1228 para receber os restos mortais de São Francisco, tem um ambiente mais baixo, escuro e recolhido. Suas paredes e capelas são decoradas por obras de alguns dos grandes artistas medievais italianos, como Cimabue, Giotto, Simone Martini e Pietro Lorenzetti.

A Basílica Superior é mais clara e ampla, iluminada por grandes vitrais. Seu interior é inteiramente coberto por afrescos, entre os quais se destacam as cenas da vida de São Francisco tradicionalmente associadas a Giotto. Todo o conjunto é muito bonito e impressionante.

Depois de deixarmos o centro histórico de Assis, descemos até a cidade de Santa Maria degli Angeli, onde visitamos a grande Basílica Papal de Santa Maria degli Angeli in Porziuncola.

A imensa basílica foi construída envolvendo e protegendo a Porciúncula, uma pequena e antiga igreja que São Francisco restaurou e transformou em um dos centros fundamentais de sua vida religiosa. Foi ali que se estruturou a primeira comunidade dos Frades Menores e que Santa Clara foi acolhida no início de sua caminhada franciscana. Por essas razões, a Porciúncula é considerada o coração do franciscanismo.

Na mesma basílica fica a Cappella del Transito, instalada no pequeno espaço onde funcionava a antiga enfermaria do convento. Esse é o local tradicionalmente reconhecido como aquele em que São Francisco morreu, na noite de 3 de outubro de 1226. Portanto, embora a morte tenha acontecido junto à Porciúncula, foi nessa capela — e não dentro da pequena igreja — que ele passou seus últimos momentos.

Depois da visita, retornamos à casa na Toscana. Aproveitamos o restante da tarde para descansar na piscina e tomar o Rosambra, vinho rosé que havíamos comprado na Tenuta di Arceno.

À noite, tivemos nosso último jantar preparado por Fábio e Paola e aproveitamos para tirar algumas fotografias com os dois.

O cardápio foi inteiramente baseado em funghi: começamos com torradinhas cobertas com cogumelos;

como primo piatto, foi servida uma massa com cogumelos;

e, como secondo piatto, cogumelos preparados na frigideira com um molho muito saboroso.

Tudo estava delicioso.

Para acompanhar o jantar, abrimos uma garrafa do Arcanum, o vinho mais prestigiado da Tenuta di Arceno, que havíamos comprado durante a visita à vinícola.

12 de setembro de 2026 — Da Toscana a Monopoli

Às 9h, deixamos o Agriturismo Boschi Salviati e seguimos em direção a Roma. Antonello nos levou até o Aeroporto de Fiumicino, numa viagem de aproximadamente duas horas e meia, com uma parada no caminho. No aeroporto, alugamos um carro na Hertz: um MG HS híbrido, vermelho, espaçoso e muito bonito. Não conhecíamos a marca MG e tivemos uma boa primeira impressão do veículo.

Saímos do aeroporto por volta das 13h. Nossa intenção era fazer uma parada na Reggia di Caserta, o antigo palácio real situado próximo a Nápoles. Fizemos o desvio até lá, mas encontramos o estacionamento fechado, embora o palácio aparentemente estivesse funcionando. Ainda passamos cerca de vinte minutos procurando outro lugar onde deixar o carro, mas não encontramos. Como ainda teríamos aproximadamente três horas de estrada até Monopoli, percebemos que já não haveria tempo suficiente para realizar a visita com tranquilidade e decidimos seguir viagem.

Ao longo do percurso, observamos uma grande mudança na paisagem. Deixamos para trás as colinas e os bosques da Toscana, atravessamos a região da Campânia, nas proximidades de Nápoles, e seguimos em direção à Puglia. Aos poucos, surgiram campos mais amplos e abertos, com numerosas turbinas de energia eólica, até finalmente nos aproximarmos novamente do mar.

Chegamos a Monopoli por volta das 19h. A primeira dificuldade foi encontrar onde estacionar. Embora tivéssemos recebido a informação de que seria fácil conseguir uma vaga nas proximidades da hospedagem, circulamos durante cerca de vinte minutos antes de encontrar um lugar. Seguimos então a pé até o Palazzo Cesare, um bed and breakfast localizado na Via Lepanto, 4. A entrada era discreta, o número estava um pouco escondido e o endereço enviado pelo anfitrião não aparecia corretamente no link. Por isso, ainda demoramos quase meia hora para localizar a porta e conseguir entrar.

Superados os contratempos, encontramos um quarto amplo e confortável, com cama grande, uma pequena cozinha e um banheiro de bom tamanho.

Link para avaliação do Tripadvisor

Instalamo-nos rapidamente e logo saímos para jantar na Trattoria Il Brigante. Eu havia tentado fazer uma reserva no dia anterior, mas não conseguira. Quando chegamos, o restaurante já estava cheio, porém, depois de aproximadamente quinze minutos de espera, conseguimos uma mesa na área externa.

Link para avaliação do Tripadvisor

Para começar, dividimos um tartar de atum, muito bem preparado e saboroso.

Como prato principal, Carmem escolheu um ravioli recheado com burrata, acompanhado de scampi, cogumelos cardoncelli e tomates-cereja amarelos.

Eu pedi a sugestão do dia: paccheri allo scorfano, uma massa servida com scorfano, peixe conhecido em português como peixe-escorpião ou rascasso.

Provavelmente não teríamos escolhido esse prato por conta própria, mas seguimos a recomendação do atendente e acertamos: estava excelente. Os dois pratos foram muito saborosos.

Para acompanhar a refeição, tomamos uma garrafa de Cala Luna Fiano 2025, vinho branco da Puglia. Era um vinho agradável, embora nos tenha parecido um pouco mais leve e menos intenso do que outros que havíamos provado durante a viagem. Encerramos o jantar com uma maravilhosa panna cotta de amendoim, caramelo salgado e crumble, uma das melhores surpresas da noite.

A conta ficou em 92 euros.

13 de setembro de 2026 — Monopoli, Bari e Polignano a Mare

Começamos o dia visitando a Catedral de Monopoli, dedicada a Maria Santissima della Madia. A igreja nos surpreendeu muito: seu interior barroco, ricamente ornamentado com mármores coloridos, pinturas e detalhes dourados, é realmente impressionante.

A história da Madonna della Madia está ligada à própria construção da antiga catedral. Segundo a tradição, no início do século XII, o bispo Romualdo conduzia as obras, mas faltavam as grandes vigas de madeira necessárias para concluir o teto. Na noite de 16 de dezembro de 1117, Nossa Senhora teria aparecido repetidas vezes em sonho ao sacristão Mercurio, anunciando que uma jangada havia chegado ao porto trazendo um ícone e a madeira de que precisavam. Depois de inicialmente não acreditar no relato, o bispo dirigiu-se ao mar acompanhado pelo clero e pela população. Ali encontraram o ícone da Virgem sobre uma jangada formada por 33 grandes traves, posteriormente utilizadas na cobertura da igreja.

Uma série de pinturas exposta na catedral representa os diferentes momentos da narrativa: o sonho do sacristão, a descoberta da jangada no porto, a procissão que conduziu o ícone e as traves até a igreja e, finalmente, a conclusão do teto. 

A antiga catedral românica foi posteriormente substituída pelo atual edifício barroco, mas a Madonna della Madia continua sendo a padroeira e um dos principais símbolos religiosos de Monopoli.

Depois da visita, assistimos à missa das 11h. A celebração, em italiano, foi ainda mais especial porque homenageava quatro casais: três comemoravam cinquenta anos de casamento e um celebrava vinte e cinco anos. Foi uma cerimônia muito bonita e emocionante.

Ao sairmos da catedral, caminhamos sem pressa pelo centro histórico de Monopoli, percorrendo suas ruas estreitas e claras até o lungomare, a via que acompanha a costa. Seguimos pela orla até o Castelo de Carlos V, construído junto ao mar, mas fizemos apenas uma visita externa antes de retornar à hospedagem.

Pouco depois, pegamos o carro e fomos para Bari. Almoçamos no restaurante Baharì, indicado por Antonello.

Link para avaliação do Tripadvisor

Pedimos um prato de espaguete com polvo preparado à maneira do famoso spaghetti all’assassina, especialidade de Bari. Nesse método, a massa termina de cozinhar diretamente no molho de tomate, em contato com a frigideira muito quente, adquirindo uma textura firme e alguns pontos tostados, quase queimados.

Eu gostei bastante do prato; Carmem também gostou, embora um pouco menos. Acompanhamos a refeição com o vinho branco da casa, e a conta ficou em 44 euros.

Como era domingo, o estacionamento nas ruas estava gratuito, e conseguimos deixar o carro próximo ao porto. Começamos então nossa caminhada por Bari Vecchia, o centro histórico da cidade.

Passamos pela famosa Strada delle Orecchiette, onde as moradoras preparam, diante de suas casas, as pequenas massas em formato de orelha que se tornaram um dos símbolos da Puglia. Encontramos inclusive Nunzia, provavelmente a mais conhecida entre as chamadas signore delle orecchiette, e tiramos uma fotografia  dela.

Seguimos até o Castello Normanno-Svevo, que observamos apenas pelo lado de fora,

e depois visitamos a Catedral de San Sabino. Construída principalmente em pedra calcária clara, a igreja apresenta um estilo românico mais sóbrio do que o barroco exuberante da catedral de Monopoli. Na cripta encontram-se as relíquias de São Sabino e o ícone da Beata Vergine Maria Odegitria, padroeira de Bari. Durante nossa visita, uma moça tocava o órgão, tornando o ambiente ainda mais bonito e solene.

Logo depois, conhecemos a Basílica de São Nicolau, que nos impressionou ainda mais. O templo foi construído entre os séculos XI e XII para abrigar as relíquias de São Nicolau, trazidas de Mira, na atual Turquia, para Bari em 1087. Os restos mortais do santo encontram-se na cripta, sob o altar. Como São Nicolau é profundamente venerado tanto pelos católicos quanto pelos cristãos ortodoxos, a basílica tornou-se um importante lugar de encontro entre as duas tradições religiosas e recebe peregrinos de diferentes países, especialmente do mundo ortodoxo. Seu interior, o teto ricamente decorado e a atmosfera da cripta fizeram dessa visita um dos pontos altos do passeio por Bari.

Voltamos para Monopoli, descansamos e tomamos banho, mas o dia ainda não havia terminado: à noite, fomos conhecer Polignano a Mare. Embora tivéssemos planejado voltar no dia seguinte para vê-la durante o dia, queríamos também descobrir a cidade iluminada.

Caminhamos pelo centro histórico e fomos até a Lama Monachile, a pequena enseada cercada por altos paredões rochosos que se tornou a imagem mais famosa de Polignano a Mare. Mesmo à noite, a vista era muito bonita, e tiramos várias fotografias. Depois, seguimos até a estátua de Domenico Modugno, cantor nascido na cidade e eternizado pela música Nel blu dipinto di blu, mundialmente conhecida como Volare.  Uma das ruas, encontramos ainda versos da música  letreiros iluminados, contribuindo para a atmosfera poética do lugar.

Jantamos na Osteria dei Mulini.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos uma berinjela recheada à moda pugliese, preparada com queijo, pão e outros temperos, que estava muito gostosa.

Em seguida, dividimos um prato de orecchiette nere com gambero rosso e fiori di zucchina — massa negra em formato de pequenas orelhas, acompanhada de camarão-vermelho e flores de abobrinha, também gostosa.

Para a sobremesa, escolhemos um tiramisù. Eu gostei, mas Carmem achou o sabor um pouco mais intenso e enjoativo por causa de um dos ingredientes utilizados no preparo.

Para acompanhar o jantar, tomamos um Tierre Bianco Bombino Bianco 2025, da Azienda Agricola Mazzone. Gostamos bastante desse vinho, bem mais do que do branco que havíamos tomado na noite anterior. A conta ficou em 92 euros.

14 de setembro de 2026 — Praia, Polignano a Mare e Monopoli

Pela manhã, nossa programação inicial era fazer um passeio de barco pelas grutas de Polignano a Mare. Apesar do dia ensolarado, o mar estava bastante agitado e, por segurança e para evitar uma experiência desconfortável, resolvemos desistir. Em vez disso, decidimos aproveitar o dia na praia.

Fomos ao Lido Le Macchie, localizado na região do Capitolo, no litoral de Monopoli. Chegamos por volta das 10h30m e permanecemos lá até aproximadamente 15h30m. A temperatura da água estava em torno de 27 graus e, apesar do vento e das ondas, o mar estava agradável. Passamos algumas horas tomando sol e descansando. Não almoçamos no lido, apenas eu tomei cervejas, a Carmem um prosecco e comemos um sanduíche.

Ao sairmos da praia, seguimos diretamente para Polignano a Mare. Refizemos durante o dia parte do passeio que havíamos feito na noite anterior. Descemos até a Lama Monachile, principalmente para contemplar e fotografar, com a luz do dia, a famosa praia encaixada entre os altos paredões rochosos. Depois, caminhamos novamente pelas ruas e pelos mirantes do centro histórico.

Fizemos também uma parada na tradicional gelateria Il Super Mago del Gelo, ligada ao nome de Mario Campanella. Segundo uma brincadeira do jornalista de viagens Ricardo Freire, Mario seria a segunda personalidade mais importante de Polignano a Mare, atrás apenas de Domenico Modugno. A gelateria, fundada pela família Campanella e transformada por Mario em uma verdadeira instituição da cidade, também era frequentada por Modugno. Tomamos mais um delicioso sorvete de pistache com nocciola.

Durante o passeio, entramos na Chiesa Matrice Santa Maria Assunta, antiga catedral de Polignano a Mare. Construída na Idade Média e consagrada em 1295, a igreja apresenta uma arquitetura mais sóbria do que as catedrais barrocas que havíamos visitado nos dias anteriores. Sua estrutura conserva características românicas e góticas, às quais foram acrescentados, ao longo dos séculos, elementos renascentistas e barrocos. O interior, menos exuberante, tem uma atmosfera acolhedora e guarda diversas obras de arte sacra, entre elas esculturas de Stefano da Putignano.

Depois da visita, retornamos a Monopoli, descansamos um pouco e tomamos banho. À noite, saímos novamente para caminhar pelo centro histórico, que estava muito agradável e bem iluminado.

Durante o passeio, chamou nossa atenção a Chiesa di Santa Maria del Suffragio, conhecida como Chiesa del Purgatorio. A igreja, construída em estilo barroco entre o final do século XVII e o início do XVIII, estava aberta e iluminada. Sua decoração apresenta numerosos símbolos relacionados à morte, ao purgatório e à passagem do tempo, como caveiras, ossos cruzados e esqueletos. Além dessa iconografia incomum, a igreja conserva corpos mumificados de antigos membros da confraria, expostos em nichos. Apesar do tema um pouco sombrio, achamos a igreja muito bonita e interessante.

Os restaurantes que havíamos considerado inicialmente estavam cheios. Acabamos escolhendo o Atypical, um restaurante de aparência agradável no centro histórico de Monopoli. Consultamos rapidamente as avaliações no Tripadvisor, que eram boas, e resolvemos entrar. Os preços eram um pouco mais elevados do que os de outros restaurantes que havíamos frequentado, mas gostamos da experiência e da comida.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos um vitello tonnato: fatias finas de vitela acompanhadas de molho de atum, lavanda, flores de alcaparra e azeite extravirgem da Puglia. Era uma apresentação contemporânea de um prato tradicional italiano.

Como prato principal, Carmem escolheu uma salada de folhas variadas com peito de frango caipira grelhado, marinado em ervas mediterrâneas, ovos e molho de parmesão.

Eu aceitei a sugestão do garçom, que explicou que o chef era originário da Sardenha, e pedi os malloreddus, uma massa curta típica da culinária sarda. O prato era preparado com sépia, camarões, mexilhões, arselle — pequenos moluscos semelhantes a vôngoles —, bottarga e tomates-cereja amarelos. Foi uma combinação muito saborosa e uma boa oportunidade de conhecer uma especialidade da Sardenha em plena Puglia.

Acompanhamos com taças de um espumante da Puglia feito com a uva Verdeca.

Não pedimos sobremesa. A conta do jantar ficou em 85 euros. 

15 de setembro de 2026 — Alberobello e Locorotondo

Pela manhã, deixamos nossa hospedagem em Monopoli e seguimos diretamente para Alberobello, cidade conhecida pela grande concentração de trulli, construções tradicionais feitas com pedras sobrepostas, sem argamassa, e cobertas por característicos telhados cônicos.

Começamos o passeio pelo Rione Monti, a área mais turística e movimentada da cidade, onde existem mais de mil trulli, muitos deles transformados em lojas, restaurantes e pequenas oficinas de artesanato. Nossa primeira visita foi à Igreja de Santo Antônio de Pádua, construída em 1927 no formato de um grande trullo. Sua planta em cruz grega, a cúpula cônica e a torre sineira reproduzem, em escala maior, as formas da arquitetura tradicional de Alberobello.

Depois, percorremos as ruas do Rione Monti, que estavam bastante cheias, observando os diferentes trulli e os símbolos pintados em alguns telhados. Passamos pelo Trullo Siamese, uma construção formada por dois cones unidos, com entradas voltadas para ruas diferentes, à qual está associada uma antiga história de desentendimento entre dois irmãos.

Seguimos então para o outro lado da cidade, passando pelo Rione Aia Piccola, uma região mais residencial, onde os trulli preservam melhor sua função original de moradia. No Belvedere Santa Lucia, paramos para apreciar e fotografar a vista panorâmica do Rione Monti, com centenas de telhados cônicos ocupando a paisagem.

Caminhamos depois até o Trullo Sovrano, o maior trullo de Alberobello e o único construído com um andar superior acessível por uma escada interna. Pagamos a entrada e visitamos seu interior, organizado como uma casa-museu, o que permitiu compreender melhor a distribuição dos ambientes e a forma como essas construções eram utilizadas como residências.

Na volta, passamos pela Basílica dos Santos Cosme e Damião, dedicada aos padroeiros de Alberobello. O edifício atual, projetado pelo arquiteto Antonio Curri, apresenta uma fachada monumental de inspiração neoclássica, bastante diferente da arquitetura dos trulli. Naquele momento, estava sendo realizado um casamento. Havia inclusive um automóvel à espera dos noivos diante da igreja, e aproveitamos para tirar algumas fotografias, mas não pudemos entrar.

Enquanto esperávamos o término da cerimônia, sentamo-nos em um café próximo e tomamos duas taças de vinho branco acompanhadas de bruschettas e concluímos com caffè crema (uma de nossas bebidas favoritas da viagem).

Depois, retornamos à basílica e conseguimos visitar seu interior.

De Alberobello, seguimos para Locorotondo, onde ficamos hospedados no Annalocos Trulli, um pequeno conjunto formado por quatro trulli restaurados. 

Link para avaliação do Tripadvisor

Foi uma experiência especial, pois nosso alojamento estava inteiramente instalado dentro de um deles. O espaço era pequeno, como seria natural nesse tipo de construção, mas muito bonito, confortável e bem aproveitado, com quarto, banheiro, cozinha e uma pequena área de estar. A cama era grande e confortável, e a cozinha tinha estrutura suficiente até para preparar refeições.

Quando chegamos, o alojamento ainda estava sendo preparado, mas fomos recebidos com muita atenção por Anna. A geladeira foi abastecida com cervejas, sucos e outras bebidas, e também encontramos biscoitos doces e salgados. O café da manhã seria entregue na manhã seguinte, com cornetti — semelhantes a croissants — preparados conforme nossa preferência e uma opção salgada com presunto.

A história do lugar torna a hospedagem ainda mais interessante. Segundo a anfitriã, a estrutura de pedra é original de 1900 e pertencia aos avós dela, que viveram ali com nove filhos. Os cones foram restaurados há cerca de trinta anos, e a reforma do interior começou em 2012, sempre preservando e trabalhando a pedra original.


Enquanto o quarto ficava pronto, fizemos um passeio por Locorotondo. Caminhamos pelas ruas brancas e estreitas do centro histórico e visitamos a Igreja Matriz de São Jorge Mártir, principal igreja da cidade. Construída entre o final do século XVIII e o início do XIX, apresenta uma arquitetura predominantemente neoclássica, com uma grande cúpula visível de vários pontos da região. No interior, destacam-se os altares laterais com elementos barrocos.

Também passamos pelo Palazzo Morelli, um dos edifícios civis mais representativos de Locorotondo. Construído no início do século XIX, possui uma elegante fachada barroca, com portal trabalhado, balcões de ferro e o brasão da família Morelli.

Continuando a caminhada, encontramos por acaso a Igreja da Madonna della Greca, a mais antiga de Locorotondo. O edifício atual foi reconstruído no século XV sobre uma igreja ainda mais antiga e apresenta um estilo medieval bastante sóbrio, com elementos românicos e góticos. A fachada simples, com sua rosácea, e o interior em pedra criam uma atmosfera muito diferente da encontrada nas igrejas barrocas que havíamos visitado nos dias anteriores.

À noite, jantamos no U Curdunn, um restaurante pequeno e acolhedor no centro histórico. Havíamos feito reserva, o que foi importante devido ao tamanho reduzido do salão. Segundo nos explicou a garçonete, “U Curdunn” é o nome de Locorotondo no dialeto local.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, dividimos um tartar de carne temperado com pimenta, sal, azeite e limão, acompanhado de trufa negra, tomates amarelos e pedaços de queijo caciocavallo. A combinação dos ingredientes ficou muito saborosa.

Como prato principal, pedimos uma tagliata de scottona sem osso, grelhada na brasa e servida separadamente sobre uma pedra de lava, acompanhada de verduras grelhadas. A scottona é a carne de uma fêmea bovina jovem que ainda não teve cria, conhecida por sua maciez. A carne estava bem preparada e a pedra permitia ajustar o ponto durante a refeição.


Para acompanhar, escolhemos uma garrafa do Nèprica Primitivo 2025, da vinícola Tormaresca, um vinho tinto da Puglia que estava muito agradável. Encerramos com uma pequena torta de ricota e chocolate.

A conta ficou em 96 euros para o casal.

16 de setembro de 2026 — Um giro pelo Vale d’Itria

Começamos o dia fazendo um passeio por várias cidades do Vale d’Itria. 

Nossa primeira parada foi Martina Franca. Depois de algum tempo procurando, encontramos onde deixar o carro e começamos a caminhar pelo centro histórico. Entramos pela Piazza Roma, onde se encontra o imponente Palazzo Ducale, construído a partir do século XVII e marcado pela arquitetura barroca. Ao lado fica a Porta di Santo Stefano, uma das antigas entradas da cidade.

Seguimos até a Basílica de San Martino, principal igreja da cidade. Construída no século XVIII sobre um templo anterior, a basílica adota o estilo barroco e rococó, com interior é amplo e ricamente decorado, com altares, esculturas e mármores policromos.

No altar-mor, construído em 1773, encontra-se uma antiga escultura de São Martinho, representado com as vestes de bispo. A imagem, esculpida por Stefano da Putignano em 1518, já pertencia à igreja anterior e foi preservada por causa da grande devoção da população. O conjunto é emoldurado por colunas, mármores coloridos e esculturas alegóricas. 

Também nos chamou a atenção a Madonna Pastorella, uma escultura de madeira do século XVIII. Nossa Senhora aparece vestida como uma pastora, cercada por ovelhas e anjos. A imagem, com suas roupas bordadas em fios dourados, é bastante delicada e diferente das representações marianas que havíamos encontrado em outras igrejas.

Por fim, passamos pela Piazza Maria Immacolata, com seu espaço semicircular cercado por arcadas, e percorremos outras ruas e praças, tirando muitas fotografias. 

Pegamos o carro e seguimos para Ceglie Messapica. Chegamos por volta de 12h30m e encontramos uma cidade muito parada, com praticamente todas as lojas fechadas e pouquíssimas pessoas nas ruas. É provável que o horário da pausa diurna tenha contribuído bastante para essa impressão, mas, entre todas as cidades que visitamos, foi a única de que realmente não gostamos.

Ainda tentamos conhecer os principais pontos do centro histórico. Fomos até a Chiesa Matrice di Santa Maria Assunta, diante do Castelo Ducal, mas a igreja estava fechada. O castelo também não podia ser visitado e parecia passar por obras. A igreja atual foi ampliada e reconstruída no século XVIII e conserva trabalhos do pintor pugliese Domenico Antonio Carella, mas não tivemos oportunidade de conhecer seu interior. 

Continuamos andando, mas permanecia a sensação de uma cidade vazia e pouco acolhedora naquele horário. Quando já estávamos saindo, passamos ainda pela Igreja de San Gioacchino, facilmente reconhecida pelo tamanho e pela cúpula revestida com faixas coloridas (que não saiu na foto), que também estava fechada.

Nossa parada seguinte foi Ostuni, conhecida como a Cidade Branca por causa do conjunto de casas caiadas que cobre a colina. Ali conseguimos estacionar com relativa facilidade, em uma área ampla destinada aos visitantes.

Entramos na cidade pela Piazza della Libertà, dominada pela alta Coluna de Sant’Oronzo, erguida no século XVIII em homenagem ao santo protetor de Ostuni. Visitamos também a Igreja de San Francesco d’Assisi, situada na mesma praça, e depois começamos a subir pelas ruas brancas e sinuosas do centro histórico.

Ostuni confirmou sua fama: a cidade é realmente muito bonita. Suas casas claras, escadas, arcos, passagens estreitas e lojas instaladas em pequenos edifícios criam um cenário muito agradável. Ao lado de Locorotondo, foi uma das cidades de que mais gostamos no Vale d’Itria — e é difícil escolher qual das duas é a mais bonita.

Durante o passeio, paramos na Osteria Pizzeria Sant’Oronzo.

Pedimos uma pizza capricciosa para dividir. Carmem tomou uma taça de vinho rosado e eu, uma cerveja da Puglia. Depois, encerramos a refeição com dois cafés e um pasticciotto recheado com creme, doce típico da região, criado na cidade de Galatina, na província de Lecce, por volta de 1745. Tudo estava muito gostoso, e o que seria apenas um lanche rápido se transformou em uma refeição bastante agradável.

Continuamos então a subida pelo centro histórico até a Concattedrale di Santa Maria Assunta, situada na parte mais alta da cidade. Construída principalmente no século XV, a igreja apresenta formas do gótico tardio, com influências românicas e venezianas. Sua fachada é conhecida especialmente pela grande rosácea ornamentada.

O interior estava passando por uma ampla restauração. Por isso, só era possível observar pelo vidro algumas das capelas, e não conseguimos apreciar completamente a igreja. Mesmo assim, valeu a pena chegar até lá.

Diante da catedral encontra-se o Arco Scoppa, uma passagem elevada que liga o antigo Palácio Episcopal ao Seminário. A estrutura atual, feita de pedra no século XVIII para substituir uma passagem anterior de madeira, lembra visualmente uma pequena ponte suspensa entre os edifícios. Isso nos fez pensar na Ponte dos Suspiros, em Veneza, embora as duas tenham histórias e funções muito diferentes. Em Veneza, a ponte ligava o Palácio Ducal às prisões e teria recebido esse nome por representar o último olhar dos condenados para o exterior; em Ostuni, o arco servia à comunicação entre edifícios religiosos.

Seguimos ainda até um mirante um pouco adiante, de onde observamos a paisagem, e depois passeamos mais um pouco pelas ruas brancas antes de voltar ao carro.

Nossa última parada foi Cisternino. Passamos menos tempo ali, pois seu centro histórico é bastante reduzido, mas a cidade nos pareceu muito bonita e agradável. Caminhamos por suas pequenas ruas, entre casas caiadas, arcos, escadas e vasos de flores.

Fomos também até a Villa Comunale, na Piazza Garibaldi, onde fica o monumento dedicado aos mortos da Primeira Guerra Mundial. Atrás do jardim há um mirante com uma bela vista para o Vale d’Itria. 

Retornamos a Locorotondo e, à noite, saímos para jantar na Osteria Il Rosone.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos uma focaccia tipica alla barese “a modo nostro”, servida com coppa e queijo stracciatella. A combinação da massa com o embutido e o queijo cremoso estava muito saborosa.

Como prato principal, escolhi um arrosto misto della tradizione, composto por uma salsiccia, quatro bombette e três costeletas de cordeiro. A linguiça era muito bem temperada. As bombette, pequenos enrolados de carne de porco recheados com queijo e coppa, estavam deliciosas, e as costeletas de cordeiro também eram muito saborosas. Pedi como acompanhamento legumes grelhados: abobrinha, berinjela e pimentão.

Carmem escolheu um controfiletto di manzo com patate alla cenere speziate. A carne estava muito boa, acompanhada de batatas temperadas, e ela também gostou bastante das abobrinhas servidas com o prato.

Terminamos a refeição com um suflê de pistache, também muito bom. 


Para beber, escolhemos o Verso Sud Susumaniello, da vinícola I Pàstini, situada muito perto de Locorotondo. Havíamos tentado visitar a cantina, mas não conseguimos vaga. Foi nossa primeira experiência com um vinho produzido com a uva Susumaniello, variedade tradicional da Puglia, e gostamos muito.

A conta saiu 93 euros para o casal.

17 de setembro de 2026 — Chegada a Otranto

Pela manhã, deixamos Locorotondo e seguimos diretamente para Otranto, em uma viagem de aproximadamente duas horas. Ficamos hospedados no Palazzo Marzo, um bed and breakfast muito bem localizado, a poucos passos do centro histórico, do castelo e da orla.

Link para avaliação do Tripadvisor

Fomos recebidos com muita simpatia por Mariella e Manila. Além de nos explicarem tudo sobre a hospedagem, ajudaram a reservar um passeio de barco para o dia seguinte e nos deram orientações e sugestões de restaurantes. 

Depois de nos instalarmos, seguimos a recomendação das anfitriãs e fomos passar a tarde na Spiaggetta del Molo, conhecida também como Spiaggia dei Bambini (Praia das Crianças). O nome é muito apropriado: o mar era extremamente tranquilo, sem ondas, e o fundo permanecia raso mesmo quando avançávamos por uma boa distância. A temperatura da água estava em torno de 27 graus e passamos algum tempo nadando e aproveitando o mar.

Depois, fomos conhecer a praia vizinha, a Spiaggia dei Gradoni, também chamada de Spiaggia degli Scaloni. Ela igualmente possui areia fina e um fundo que desce suavemente, sendo bastante frequentada por famílias. Não entramos no mar novamente, mas permanecemos algum tempo observando a praia e a movimentação da orla.

Ao sairmos, paramos na Gelateria Fisotti. Foi o melhor sorvete que havíamos provado na viagem até aquele momento. Escolhi pistache com nozes, enquanto Carmem pediu pistache e manteiga de amendoim e caramelo. Os dois estavam excelentes,.

Continuamos caminhando pela cidade, passamos pelo Castelo Aragonês e percorremos parte das ruas do centro histórico.

À noite, saímos novamente e visitamos a Catedral de Santa Maria Annunziata, fundada no século XI e consagrada em 1088. Seu elemento mais impressionante é o enorme mosaico que cobre praticamente todo o piso da igreja.

A obra foi realizada entre 1163 e 1165 por um grupo de artistas liderado pelo monge Pantaleone. No centro está uma grande Árvore da Vida, em torno da qual aparecem cenas e personagens de origens muito diferentes: episódios do Antigo Testamento, Adão e Eva, Noé, a Torre de Babel, animais reais e fantásticos, signos do zodíaco, os trabalhos dos meses do ano e figuras provenientes da literatura e das lendas medievais, como o rei Artur e Alexandre Magno.

Essa combinação torna o mosaico tão fascinante quanto misterioso. Ele não deve ser entendido apenas como uma sequência de cenas independentes, mas como uma representação da trajetória humana. A Árvore da Vida liga a terra ao céu, enquanto as imagens distribuídas por seus ramos mostram a luta entre o bem e o mal, o pecado e a salvação, a soberba e a humildade. Na interpretação apresentada pela própria catedral, o ser humano não alcança o alto da árvore por meio do orgulho ou da força, mas pela fé, pelo trabalho e pela humildade. É como se todo o pavimento formasse um grande livro de pedra destinado aos fiéis e peregrinos medievais.

Na catedral também vimos a pequena imagem da Madonna delle Grazie, conhecida como a Madonna de Otranto. Trata-se de uma escultura de madeira do século XIV, na qual Nossa Senhora aparece com as mãos unidas e o Menino Jesus sobre os joelhos.

A imagem está ligada a uma antiga tradição popular relacionada à invasão otomana de 1480. Segundo a narrativa, a escultura foi levada pelos turcos para Valona, na atual Albânia. Uma mulher de Otranto que havia sido escravizada desejava que a imagem retornasse à sua cidade. Ela teria conseguido recuperá-la depois de interceder pela esposa de um turco que enfrentava dificuldades durante o parto. A mulher e a criança sobreviveram, e a pequena Madonna foi colocada em uma embarcação. De acordo com a tradição, ela atravessou o mar e reapareceu nas águas próximas a Otranto, onde foi recebida pelo arcebispo, pelo clero e pela população e reconduzida solenemente à catedral. 

Em seguida, fomos jantar no Ristorante La Pignata.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos o Sapore di Mare, composto originalmente por três pequenas porções: carpaccio de peixe marinado, mexilhões gratinados e lulas fritas. Como as lulas não estavam disponíveis, foram substituídas por polvo fresco in cassuola, isto é, preparado em caçarola. A substituição foi muito boa, e o prato permitiu experimentar diferentes preparações de frutos do mar. Tudo estava muito saboroso.

Como pratos principais, escolhemos duas opções para dividir. A primeira foi bottoncini recheados com camarão-vermelho, acompanhados de tartar do mesmo camarão e molho de stracciatella. Era um prato delicado, com sabor de mar presente, mas bastante sutil e equilibrado.

O segundo prato foi um tentáculo de polvo assado, servido sobre creme de batatas e cebola caramelizada. O polvo estava perfeito, tanto no ponto quanto na textura, o creme de batatas era muito saboroso e a cebola caramelizada completava o conjunto.

Para acompanhar, aceitamos a sugestão de um vinho branco local, o Musivo, da Tenuta Merico, uma pequena vinícola situada nas proximidades de Otranto. Gostamos muito do vinho, que combinou bem com os pratos de frutos do mar.

De sobremesa, pedimos uma torta de amêndoas feita na própria casa. Também estava muito boa e encerrou muito bem a refeição.

A conta saiu 94 euros para o casal.

Quando saímos do restaurante, Otranto permanecia cheia e animada. Alguns pontos da cidade estavam especialmente iluminados, destacando as muralhas, as ruas e os edifícios históricos, como parte do evento “Otranto in Luce”. Caminhamos um pouco mais antes de retornar ao Palazzo Marzo.

18 de setembro de 2026 — Passeio de barco e viagem costeira até Leuca

Começamos o dia com um passeio de barco pela costa de Otranto. A excursão durou aproximadamente três horas e percorreu uma sequência de pequenas baías, praias e grutas marinhas próximas à cidade.

Uma das paradas foi na Baia Murrone e a outra na Baia del Mulino d’Acqua, ambas enseadas cercada por paredões rochosos e conhecida pelas cavernas abertas pela ação do mar. Na primeira,  parada, ficamos na água que era bem rasa. Na segunda, entramos em uma gruta, fomos a uma praia e nadamos por uma passagem natural que permitia entrar em uma caverna e sair pelo outro lado.

O dia estava bonito e as condições do mar eram muito agradáveis. O responsável pelo barco mediu a temperatura da água, que estava entre 26,5 e 27 graus.

No final do passeio, foi servido um pequeno aperitivo a bordo. Havia cerveja, prosecco, Coca-Cola, bruschettas, preparações com berinjela, queijos e outros petiscos.

Pagamos 50 euros por pessoa. Depois descobrimos que nosso valor havia sido um pouco inferior ao pago por outros passageiros, pois as responsáveis pela hospedagem fizeram a reserva diretamente com o proprietário do barco, evitando custos de intermediação.

Ao desembarcarmos, voltamos à Gelateria Fisotti, onde havíamos tomado o melhor sorvete da viagem no dia anterior.

Carmem repetiu os sabores de pistache e creme de amendoim com caramelo. Dessa vez, resolvi experimentar duas combinações menos tradicionais. A primeira era de azeite de oliva com pequenos pedaços de taralli, os biscoitos salgados típicos da região. A segunda combinava amêndoas e figos. Os dois sabores eram interessantes e estavam bem preparados, mas, depois da experiência, concluí que ainda prefiro os clássicos pistache e nocciola.

Como tínhamos a tarde livre, resolvemos acrescentar um passeio que não estava em nosso roteiro original: seguir de carro até Santa Maria di Leuca, percorrendo a estrada costeira. Programamos o Google Maps para nos conduzir pela SP 358, que acompanha boa parte do litoral entre Otranto e o extremo sul do Salento.

A viagem foi muito bonita, passando por pequenas localidades, enseadas e trechos de costa rochosa. Fizemos uma primeira parada em Castro. Foi difícil encontrar estacionamento, como já havia ocorrido em outras cidades da Puglia, mas acabamos conseguindo uma vaga. 

Caminhamos pelo centro histórico e apreciamos as belas vistas do mar. Passamos pelo Castelo Aragonês e pela igreja principal da cidade, a Concattedrale dell’Annunziata, mas não entramos em nenhum dos dois. Nossa visita foi breve, limitada a uma caminhada pelas ruas e aos mirantes, antes de retomarmos a estrada.

Depois de Castro, uma construção que nos chamou a atenção foi o Palazzo Stichi, em Santa Cesarea Terme.  Construído no final do século XIX, possui um estilo eclético mourisco (árabe), o edifício é famoso por sua imponente cúpula em tons de laranja/vermelho. É uma proporção privada. Como estávamos dirigindo, não fotografamos. Abaixo segue uma foto da internet, retirada do site da cidade.

Mais adiante, paramos na Ponte del Ciolo, em Gagliano del Capo. A ponte atravessa uma profunda garganta rochosa que termina no mar. Vista da estrada, a paisagem é impressionante. Embaixo da ponte existe uma pequena praia entre os paredões, onde várias pessoas estavam tomando banho.

Chegamos finalmente a Santa Maria di Leuca, na extremidade sul do Salento. A localidade é tradicionalmente apresentada como o ponto de encontro entre os mares Adriático e Jônico.

Subimos até o Santuário de Santa Maria de Finibus Terrae. A expressão latina de finibus terrae significa “nos confins da terra” ou “no fim da terra”, nome adequado para um santuário erguido no extremo da península salentina.

Segundo a tradição religiosa, São Pedro teria passado por esse lugar durante sua viagem para Roma, e um antigo templo dedicado à deusa Minerva teria sido transformado em espaço de culto cristão. O santuário foi destruído e reconstruído várias vezes ao longo dos séculos por causa de ataques e invasões. O edifício atual data do século XVIII e apresenta uma aparência externa sóbria e fortificada, concebida também para resistir às incursões vindas do mar.

Entramos na igreja e vimos, sobre o altar principal, o quadro da Madonna de Finibus Terrae, no qual Nossa Senhora aparece com o Menino Jesus. A obra é tradicionalmente atribuída a Jacopo Palma, o Jovem. O quadro sofreu danos em um incêndio no século XVII, que, de acordo com a tradição, teria poupado os rostos da Virgem e do Menino. O santuário foi elevado à condição de basílica menor em 1990.

Do alto do promontório, também observamos a cidade, a marina e o litoral de Santa Maria di Leuca. Próximo ao santuário ficam o grande farol e a Cascata Monumentale, construída para marcar o ponto final do Aqueduto da Puglia. A água desce por uma longa escadaria em direção ao mar, mas a cascata estava desligada durante nossa visita.

Percorremos de carro a orla e passamos pela marina de Leuca. e retornamos a Otranto pelas estradas centrais (que não eram muito mais rápidas ou melhores que a costeira - levou cerca de 1 hora).

À noite, fomos jantar no restaurante Retro Gusto.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, recebemos um amuse bouche de cortesia e pedimos um baccalà in pastella con acqua di mare, servido sobre creme de tomates-cereja da Puglia e acompanhado de pesto de urtiga e figo. Eram pedaços de bacalhau empanados muito bem preparados e bastante saborosos, com um sabor mais delicado do que o bacalhau a que estamos habituados no Brasil. Lembrou-nos uma preparação semelhante que havíamos provado na Espanha: parecia quase um peixe branco fresco, com sabor suave e sem a presença tão intensa do sal.

Como pratos principais, escolhemos duas opções. Eu pedi mezzemaniche al basilico com pescatrice e datterino giallo alla menta. As mezzemaniche são uma massa curta e tubular, semelhante a pequenos rigatoni. O prato era preparado com tamboril, tomates-cereja amarelos e um toque de hortelã. Lembrou os paccheri com scorfano que eu havia comido em Monopoli. 

Carmem pediu filetto di maialino su crema di patate, timo selvatico e salsa al tartufo: filé de porco servido sobre creme de batatas, com tomilho-selvagem e molho de trufas. A carne estava gostosa e bem preparada, mas o prato não surpreendeu. O creme de batatas era agradável, embora mais simples e menos marcante do que o que havíamos provado na noite anterior com o polvo assado.

Para beber, escolhemos uma garrafa de Susumarino Salento IGP Susumaniello Rosato 2025, produzido pela Felline. Depois de termos experimentado um Susumaniello tinto em Locorotondo, foi interessante conhecer a versão rosada da mesma uva. O vinho era fresco e frutado e acompanhou bem tanto o bacalhau quanto os pratos principais.

Para a sobremesa, pedimos um spumone de nocciola e pistache. Era semelhante a um semifreddo, com recheio de avelã e pistache e uma base de biscoito. Estava bastante gostoso e encerrou bem o jantar.

A conta saiu 110 euros para o casal.

Na volta para o hotel, vimos que estavam fazendo uma exposição de cinema nas muralhas do fosso do castelo, também parte do evento “Otranto in Luce”. Assistimos um pouco.

19 de setembro de 2026 — De Otranto a Lecce pelo litoral do Salento

Pela manhã, deixamos o hotel em Otranto e seguimos em direção a Lecce, fazendo o trajeto pela costa e parando em diferentes praias e pontos de interesse do litoral do Salento.

Nossa primeira parada foi em Torre Sant’Andrea, onde ficam os famosos faraglioni: grandes formações de pedra calcária esculpidas pelo mar, entre arcos, paredões e rochedos isolados. Não sabíamos exatamente o que encontrar e acabamos diante de uma das paisagens mais bonitas de toda a viagem. O dia estava ensolarado, e a água apresentava um tom azul muito intenso, além de estar extremamente transparente. Várias pessoas tomavam banho entre as formações rochosas, completando um cenário muito bonito.

Em seguida, fomos até Torre dell’Orso, onde estacionamos na cidade e caminhamos pela praia urbana. 

A praia era bonita, mas depois percebemos que um dos pontos mais procurados ficava na extremidade sul da baía, próximo às formações conhecidas como Le Due Sorelle. Pegamos novamente o carro e tentamos chegar mais perto, porém estava praticamente impossível estacionar. Seria necessário deixar o veículo muito distante e, como ainda tínhamos vários lugares para visitar, decidimos não parar. Conseguimos observar de longe as duas grandes rochas que emergem do mar.

Nossa próxima parada foi na Grotta della Poesia, em Roca Vecchia. Pagamos o ingresso, que dá acesso tanto à gruta quanto à área arqueológica próxima. A chamada Grotta della Poesia Grande é uma ampla cavidade natural cujo teto desabou ao longo do tempo, formando uma espécie de piscina cercada por paredões de pedra. Atualmente não é permitido tomar banho, mas a paisagem continua sendo muito bonita. Também vimos a Grotta della Poesia Piccola, menor e menos impactante naquele momento.

Além da beleza natural, a região possui grande importância arqueológica. Roca Vecchia foi ocupada em diferentes períodos, desde a Idade do Bronze, passando pelas civilizações messápica e romana. Na década de 1980 foram identificadas, nas paredes da gruta, numerosas inscrições em línguas messápica, grega e latina. Esses registros indicam que o local funcionou durante séculos como um santuário ligado ao culto de uma divindade messápica chamada Taotor. Ao lado das grutas, percorremos também as ruínas do antigo assentamento, onde permanecem trechos de muralhas, fundações e outras estruturas descobertas durante as escavações. 

Continuamos pela estrada litorânea e paramos em San Foca, um pequeno balneário com marina, calçadão e praias de águas tranquilas. Fizemos apenas uma caminhada pela orla, observando a praia e o movimento da cidade.

A última parada antes de Lecce foi em San Cataldo, outra localidade litorânea bastante frequentada pelos moradores da região. Também não entramos no mar: paramos apenas para conhecer a praia antes de seguir para Lecce.

Em Lecce, ficamos hospedados no Arryvo Hotel. Diferentemente das pequenas hospedagens e apartamentos em que havíamos ficado nos dias anteriores, o Arryvo possui uma estrutura completa de hotel, com recepção e áreas comuns. O acesso de carro é feito pela parte mais nova da cidade, onde existe um estacionamento pago próximo ao hotel. Pela saída do outro lado do edifício, porém, chegávamos praticamente direto ao centro histórico

Link para avaliação do Tripadvisor

Depois de deixarmos as malas no hotel, começamos nosso primeiro passeio por Lecce pela Porta Rudiae, situada no lado oeste do centro histórico. A porta atual foi reconstruída em 1703 sobre uma entrada mais antiga e é formada por um grande arco ladeado por colunas. No alto aparecem as estátuas de Santo Oronzo, padroeiro de Lecce, Santa Irene e São Domingos. 

Durante o caminho, paramos na Gelateria Sensi, onde tomamos sorvetes de pistache e nocciola. Estavam gostosos, embora não tenham superado os melhores que havíamos experimentado durante a viagem.

Seguimos até a Piazza del Duomo, um dos conjuntos barrocos mais importantes de Lecce. A catedral é dedicada a Maria Santíssima Assunta e apresenta duas fachadas: a principal e outra mais ornamentada, voltada para a entrada da praça e concebida para produzir maior impacto visual. Ao lado fica o alto campanário, de onde é possível observar a cidade. Havia um casamento no interior da catedral e, por isso, naquele momento só conseguimos contemplar o conjunto pelo lado de fora.

Depois, visitamos o Museo del Teatro Romano. O museu apresenta objetos e informações sobre a antiga Lupiae, como era chamada a cidade durante o período romano, e conduz até os vestígios do teatro. A estrutura foi descoberta por acaso em 1929, durante obras realizadas no centro histórico, e provavelmente começou a ser construída no período de Augusto. Estima-se que pudesse receber milhares de espectadores para apresentações de comédias e tragédias.

Pagamos o ingresso esperando observar melhor o monumento, mas o teatro estava cercado por andaimes e passava por obras de restauração. A exposição do museu foi interessante, porém a visita acabou sendo menos proveitosa do que imaginávamos, justamente porque a parte mais importante do conjunto estava encoberta.

Passamos depois pela Igreja de Santa Clara, uma das igrejas barrocas do centro. Como já estávamos cansados e seria necessário comprar o ingresso do circuito de igrejas apenas para aquela visita — sem sabermos se ainda conseguiríamos voltar à catedral —, decidimos observá-la somente por fora.

Chegamos então à Piazza Sant’Oronzo, onde ficam a coluna dedicada ao padroeiro e parte do Anfiteatro Romano. Construído entre os séculos I e II, o anfiteatro era utilizado para espetáculos públicos e combates. Apenas uma parte da estrutura está atualmente exposta, pois o restante permanece sob a praça e os edifícios ao redor. Mesmo assim, as arquibancadas e a arena visíveis no centro da cidade mostram a importância de Lecce durante o período romano.

Passamos também pelo Castelo de Carlos V, ampliado no século XVI durante o domínio do imperador que lhe deu o nome. Vimos sua parte externa e entramos no pátio, mas o edifício também estava passando por obras.

Seguimos até a Basílica de Santa Croce, considerada uma das maiores expressões do barroco leccese. Sua fachada é coberta por colunas, esculturas, figuras humanas, animais e elementos vegetais talhados na característica pedra clara de Lecce. Mais uma vez, havia um casamento sendo celebrado, e por isso nossa visita ficou restrita ao exterior.

Encerramos a caminhada na Porta Napoli, construída em 1548 em homenagem ao imperador Carlos V e também chamada de Arco do Triunfo. Achamos bem mais simples que a Porta Rudiae, mas depois percebemos que tiramos foto da parte de dentro. No dia da saída, conseguimos fotografar o lado certo, que é bem bonito.

À noite, assistimos a missa das 19h na catedral. Além de aproveitarmos do sacramento, admiramos a beleza da catedral.

Jantamos no restaurante I Latini.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos caciocavallo local grelhado na chapa acompanhado de capocollo de Martina Franca. O capocollo é uma carne suína curada, semelhante à copa ou a um presunto cru, mas com sabor e textura próprios. A combinação com o queijo estava muito boa.

Como prato principal, eu escolhi as bombette grelhadas com creme à carbonara. Eram pequenos rolinhos de carne de porco recheados com capocollo e caciocavallo, envolvidos por uma fatia crocante de speck e preparados na brasa.

Carmem pediu um rolê de frango com trufa e topinambur, servido com caciocavallo derretido e batatas assadas. O topinambur, também chamado de alcachofra-de-jerusalém, é um tubérculo de sabor suave, que lembra um pouco a alcachofra e a batata. Os dois pratos estavam muito saborosos.

Para acompanhar, escolhemos uma garrafa de Fanòva Primitivo Gioia del Colle DOC, produzido pela vinícola Terrecarsiche 1939. Ainda não conhecíamos a denominação Gioia del Colle, uma das regiões da Puglia ligadas à produção da uva Primitivo, e gostamos bastante do vinho.

Terminamos com um cannolo scomposto, uma versão desconstruída do doce siciliano, preparada com pedaços crocantes da massa, creme de ricota e chocolate.

Como havíamos reservado pelo TheFork, recebemos um bom desconto. A conta ficou em 91,90 euros para o casal.

20 de setembro de 2026 — Punta Prosciutto, Gallipoli e Lecce

A previsão para o dia indicava céu parcialmente nublado, alguns períodos de sol e possibilidade de chuva. Mesmo assim, resolvemos aproveitar a manhã na praia e fomos até Punta Prosciutto, no litoral do mar Jônico. Escolhemos o lido Teranga Bay, onde chegamos ainda com sol.

A praia nos surpreendeu muito. A água estava transparente e quente, em torno de 27 graus, e a praia era de areia. Era um pouco mais profunda do que na praia que havíamos conhecido em Otranto, o mar estava muito tranquilo e parecia uma grande piscina natural. Foi a melhor praia em que estivemos durante a viagem.

Aproveitamos bastante o banho de mar e permanecemos cerca de quarenta minutos dentro da água. Depois, voltamos para as espreguiçadeiras e ficamos algum tempo lendo. O céu continuava nublado em alguns pontos, mas não parecia que a chuva fosse realmente chegar.

Pouco depois, porém, apareceu uma grande nuvem escura e, por volta de 13h30m, começou a cair um temporal. Todos saíram rapidamente da praia e se abrigaram no bar do lido. Esperamos entre trinta e quarenta minutos até a chuva passar e ainda tentamos voltar para a areia. Os funcionários, no entanto, não reabriram os guarda-sóis, porque havia previsão de uma nova pancada de chuva.

Entramos mais uma vez no mar, mas logo percebemos que outras nuvens muito escuras estavam se aproximando. Como havíamos levado roupas para trocar, tomamos banho, nos arrumamos e decidimos seguir para Gallipoli. 

Ao sairmos, vimos que as estradas estavam alagadas. A chuva foi muito forte em toda a região. Em Polignano, a Lama Monachile ficou inundada.

Cerca de meia hora depois, chegamos à Gallipoli e encontramos um cenário completamente diferente: ensolarada com apenas algumas nuvens brancas no céu.

Caminhamos pelo centro histórico, construído em uma pequena ilha ligada à parte moderna da cidade por uma ponte. Logo na entrada está o Castelo de Gallipoli, fortaleza cercada pelo mar e formada por grandes torres. Vimos o edifício somente pelo lado de fora e seguimos pelas ruas estreitas da parte antiga.


Seguimos até a Basílica Concatedral de Santa Ágata, construída entre 1629 e 1696 no lugar de outra igreja medieva, tem sua fachada feita com a pedra calcária clara característica da região.

O interior é dividido em três naves e possui tantos quadros que a igreja é frequentemente descrita como uma verdadeira pinacoteca. As grandes pinturas dos séculos XVII e XVIII cobrem os altares, as paredes e o teto. Entre seus autores estão o pintor de Gallipoli Giovanni Andrea Coppola e os napolitanos Nicola e Carlo Malinconico.

As telas apresentam episódios da vida de Cristo e, principalmente, da história de Santa Ágata. No teto e em outras partes da igreja aparecem cenas como seu julgamento, sua prisão, seu martírio, a visita de São Pedro na prisão, a proteção atribuída à santa durante uma erupção do Etna e sua glorificação.

Santa Ágata nasceu em Catania, na Sicília, e foi martirizada no século III, durante as perseguições aos cristãos. Segundo a tradição, ela recusou as investidas do governador romano Quintiano porque havia consagrado sua vida à fé cristã. Por isso, foi presa e submetida a diferentes torturas, entre elas a amputação dos seios, tornando-se posteriormente protetora das mulheres com doenças mamárias. Também passou a ser invocada contra incêndios, terremotos e erupções vulcânicas.

A devoção de Gallipoli à santa está ligada a uma antiga tradição local. Conta-se que, em 1126, uma mulher lavava roupas na Spiaggia della Purità quando Santa Ágata lhe apareceu em sonho, indicando que seu filho segurava uma relíquia da santa na boca. A criança somente a teria soltado depois que o bispo invocou o nome de Ágata. A relíquia permaneceu durante séculos em Gallipoli, mas posteriormente foi levada para Galatina, onde ainda é conservada. Essa narrativa explica por que Santa Ágata se tornou padroeira de Gallipoli e ocupa um lugar tão importante na decoração da catedral.

Depois da visita, continuamos caminhando pelas ruas do centro histórico. De um trecho mais elevado da muralha, vimos a Spiaggia della Purità, a pequena praia de areia situada junto às antigas fortificações da cidade. Antes de retornar ao carro, paramos para tomar um gelato, que estava gostoso, embora não tenha sido um dos destaques gastronômicos da viagem.

Permanecemos aproximadamente uma hora e meia em Gallipoli e depois retornamos a Lecce. No hotel, tomamos banho e nos arrumamos para o jantar. 

Como o restaurante era um pouco mais distante, fizemos mais um passeio pelo centro histórico, que nos permitiu rever vários monumentos iluminados. 

Jantamos no restaurante La Cucina di Mamma Elvira.

Link para avaliação do Tripadvisor

De entrada, pedimos uma versão diferente das tradicionais bombette da Puglia: bombette de peixe-espada com capocollo, scamorza, cebola caramelizada e creme de manjericão. Em vez dos conhecidos rolinhos de carne de porco, o prato utilizava o peixe-espada como base. Estava muito gostoso.

Como prato principal, Carmem pediu pluma ibérica com friggitelli. A pluma é um corte pequeno e bastante marmorizado do porco ibérico, retirado da região próxima ao lombo. Por causa da infiltração de gordura e de sua coloração mais avermelhada, sua aparência e sua textura podem lembrar as de uma carne bovina. Estava muito macia e bem preparada. Os friggitelli, pequenos pimentões verdes italianos, completavam o prato.

Eu escolhi nhoque artesanal com molho de tomate e guanciale de Mangalica. A Mangalica é uma raça suína de origem húngara, conhecida por sua carne gordurosa e muito saborosa. O guanciale estava excelente e deu bastante sabor ao molho. O nhoque e o molho de tomate estavam bem preparados, embora o prato tenha sido menos surpreendente do que a entrada e a pluma ibérica.

Para acompanhar a refeição, tomamos uma garrafa de Salende Vermentino Salento IGT 2025, da vinícola Tenute Rubino. Era um vinho branco agradável e harmonizou bem tanto com o peixe-espada quanto com os pratos principais.

Na sobremesa, dividimos um tiramisù. Estava gostoso, ainda que não tenha sido o melhor que experimentamos durante a viagem.

A conta ficou em 95 euros para o casal. 

21 de setembro de 2026 — Um dia em Matera

Pela manhã, deixamos Lecce e seguimos em direção a Matera. Na saída, conseguimos fotografar, do carro, o lado mais bonito da Porta Napoli e a escultura “Germinazioni 1”, de Ercole Pignatelli, instalada em 2010 na rotatória de Porta d’Europa, e que tínhamos achado bonita.  A obra apresenta a cultura mediterrânea como algo que cresce e se transforma: elementos vegetais, animais e fragmentos de arquitetura se entrelaçam verticalmente e com um tucano escuro e uma pomba branca no topo representando o vento da África e o vento do Norte.

A viagem durou aproximadamente duas horas e meia, considerando uma parada durante o percurso. Como nosso hotel ficava dentro da zona histórica, deixamos o carro em um estacionamento fora dos Sassi e continuamos a pé.

Ficamos hospedados no Antico Convicino Suites & Spa, situado no Sasso Caveoso. 

Link para avaliação do Tripadvisor

O nome convicino é uma palavra antiga relacionada à ideia de vizinhança ou de um conjunto de imóveis próximos, e não uma referência direta a um convento. O hotel ocupa um complexo arquitetônico do século XVI, formado pela combinação de ambientes construídos em pedra com espaços escavados na rocha. Segundo a explicação que recebemos no hotel, a área teria integrado, em período anterior, um complexo ligado a um convento feminino do século XIV.

Ficamos no quarto 24, uma suíte instalada parcialmente dentro de uma gruta. O espaço anunciado é de aproximadamente noventa metros quadrados, mas parecia ainda maior. Além do quarto principal, havia uma porta que levava a outro grande ambiente escavado na rocha, organizado como uma sala de vinhos. Ficamos inclusive com a impressão de que essa parte não estava incluída na metragem informada.

A suíte era enorme e muito confortável, com cama grande, banheiro igualmente espaçoso e uma combinação muito interessante entre a rocha original e as estruturas de pedra construídas posteriormente. Apesar de conservar o formato e os materiais característicos dos Sassi, o ambiente foi adaptado com bastante conforto.

Em seguida, saímos para fazer um longo percurso pelos Sassi, seguindo como referência o roteiro do site Viaje na Viagem (link para o roteiro). 

A arquitetura de Matera foi se formando a partir de cavidades naturais que, ao longo dos séculos, foram ampliadas e modificadas pela ação humana. A pedra retirada durante as escavações era utilizada na construção das fachadas, paredes e abóbadas externas. Alguns desses espaços serviram como habitações, depósitos, estábulos ou cantinas, muitas vezes mudando de função ao longo do tempo. A ocupação humana da região remonta ao Paleolítico, e a paisagem atual registra diferentes fases dessa longa história.

A primeira parada foi o Convento de Sant’Agostino. O roteiro sugeria chegar até lá de táxi, mas decidimos caminhar e não achamos o trajeto tão difícil. Vimos o conjunto apenas pelo lado de fora e aproveitamos principalmente a vista panorâmica dos Sassi. Durante o caminho, encontramos vários outros pontos interessantes para fotografar.

Seguimos até o Sassi in Miniatura, uma reprodução detalhada da cidade escavada e construída em pedra. A visita era gratuita, embora fosse solicitada uma contribuição espontânea. A maquete ajuda a compreender a organização de Matera, com suas casas sobrepostas, ruas estreitas, igrejas rupestres e diferentes níveis do terreno.

No mesmo local, o responsável nos convidou a conhecer uma casa-gruta, do outro lado da rua. A casa era pequena e representava uma moradia bastante simples. O ambiente estava organizado com móveis, utensílios domésticos e objetos que mostravam como viviam as famílias dos Sassi. Pessoas e animais dividiam o mesmo espaço, e cada parte era aproveitada para dormir, cozinhar, trabalhar ou guardar alimentos e ferramentas. 

Como já havíamos conhecido essa casa-gruta, decidimos mais tarde não visitar a Casa Grotta del Vico Solitario, indicada no roteiro, pois a proposta era semelhante.

Continuamos até o conjunto rupestre da Madonna delle Virtù, que observamos somente por fora. A antiga igreja escavada na rocha e seus ambientes anexos são hoje utilizados também para exposições e atividades culturais. Como naquele momento funcionavam mais como espaço de arte, preferimos seguir o passeio. No caminho, dava para ver o desfiladeiro do rio Gravina e as inúmeras cavernas incrustadas nas montanhas.

Dali, enfrentamos uma longa subida, com muitas escadas, até a Piazza del Duomo. Visitamos a Catedral de Matera, oficialmente dedicada a Maria Santíssima della Bruna e a Santo Eustáquio, padroeiros da cidade. Diferentemente do que constava no roteiro que estávamos seguindo, o acesso já não era gratuito: o ingresso incluía a catedral e o Museu Diocesano MATA. Mesmo assim, consideramos que a visita valeu muito a pena.

O museu, instalado no antigo seminário, apresenta esculturas, pinturas, objetos litúrgicos e outras obras de arte sacra produzidas entre a Idade Média e o período moderno.

Construída no século XIII no ponto mais alto da Civita, a catedral mantém externamente características do românico apuliano, embora seu interior tenha recebido uma decoração predominantemente barroca nos séculos posteriores. Em alguns trechos, pisos de vidro permitem observar estruturas e vestígios de construções mais antigas existentes sob a igreja, mostrando como diferentes períodos históricos foram se sobrepondo naquele local.

O interior é muito bonito, com pinturas, altares ornamentados e diversas representações de Santo Eustáquio. Segundo a tradição cristã, ele era um comandante romano que se converteu depois de avistar uma cruz entre os chifres de um cervo. A catedral conserva diferentes imagens relacionadas à sua vida e à sua importância como padroeiro de Matera.

Outro destaque é o fragmento do Juízo Final, um afresco do final do século XIII atribuído a Rinaldo da Taranto. Trata-se de uma das poucas partes preservadas da decoração medieval original da igreja. Também vimos a imagem medieval da Madonna della Bruna e a Capela da Imaculada, além das pinturas do teto e dos demais altares.

Depois da catedral, não fizemos a visita à Casa Noha sugerida no roteiro e seguimos diretamente para as igrejas rupestres do Sasso Caveoso, templos criados dentro da própria rocha, posteriormente adaptados e decorados.

A primeira foi Santa Maria de Idris, localizada no alto do grande rochedo chamado Monterrone. A subida é feita por uma escadaria, e a posição da igreja proporciona belas vistas de Matera e do rio Gravina. O templo foi escavado diretamente na rocha e atualmente está ligado por uma passagem interna à igreja de San Giovanni in Monterrone. Seu interior irregular conserva alguns afrescos, embora parte deles tenha sido retirada ao longo do tempo para restauração e proteção contra a umidade.

Em seguida, visitamos a igreja rupestre de Santa Lucia alle Malve, que possui uma quantidade maior de afrescos preservados. O local remonta ao século VIII e é considerado o primeiro assentamento monástico feminino beneditino de Matera. A igreja e os antigos ambientes do mosteiro foram inteiramente escavados na rocha. As pinturas nas paredes, mesmo fragmentadas, ajudam a imaginar como aquele espaço religioso foi utilizado durante séculos.

Seguimos então até a Piazza Giovanni Pascoli, já próxima do hotel. A praça estava muito agradável, com bares, restaurantes e um belo panorama dos Sassi. Era também ali, nas proximidades, que ficava o restaurante onde jantaríamos mais tarde.

Passamos pela Igreja do Purgatório, que vimos somente pelo lado de fora. Sua fachada barroca chama a atenção pelos símbolos ligados à morte e à passagem do tempo. Caveiras, ossos e outras figuras funerárias aparecem principalmente no portal, recordando a devoção às almas do purgatório.

Continuamos pela Piazza del Sedile, também próxima da hospedagem, 

e depois seguimos até o Palombaro Lungo. Essa enorme cisterna subterrânea integra o engenhoso sistema de captação e armazenamento de água desenvolvido em Matera. Escavada sob a área da Piazza Vittorio Veneto, recebia água de fontes e da chuva por meio de canais interligados.

Caminhamos por passarelas dentro da cisterna, observando suas paredes altas e curvas. A visita ajuda a entender como o controle da água foi essencial para a sobrevivência dos habitantes dos Sassi em uma região onde não havia rios atravessando diretamente a cidade.

Ao terminarmos o percurso, voltamos para o hotel bastante cansados. Embora o roteiro fosse apresentado como uma caminhada de aproximadamente três quilômetros, a sensação era de termos percorrido uma distância muito maior. As constantes subidas, descidas e escadarias tornaram o passeio fisicamente exigente.

De noite, fomos jantar no restaurante Aroma, localizado na Via Ridola, a poucos passos da Piazza Giovanni Pascoli. O restaurante ocupa os antigos espaços da primeira farmácia de Matera e apresenta uma proposta contemporânea baseada em produtos da região.

Link para avaliação do Tripadvisor

Antes dos pratos pedidos, recebemos como cortesia pequenas entradas preparadas pela cozinha. Eram porções delicadas e saborosas, que funcionaram como uma apresentação da proposta do restaurante.

Como entrada, dividimos uma tartare de carne bovina da raça Podolica, cortada à faca e temperada como uma linguiça crua, acompanhada de mostarda em grãos, espinafre cru, lâminas de cebola roxa, beterraba agridoce e maionese de alho negro. A Podolica é uma raça bovina criada principalmente no sul da Itália e muito ligada à tradição agropecuária da Basilicata. O prato estava muito bom e apresentava vários sabores e texturas diferentes.

A Carmem pediu um filé de vitelo de origem lucana, cozido lentamente e finalizado sobre o carvão. Era servido com molho bordalês, batatas amassadas temperadas com vinagre de arroz e uma pequena salada de ervas e flores. A carne estava macia e muito saborosa.

Eu escolhi o carré de leitão, preparado durante 48 horas e servido com seu próprio molho à mostarda, berinjela violeta em carpione e cardamomo. Embora o cardápio o descrevesse como carré, a apresentação lembrava mais uma porção compacta de carne, sem osso aparente. A textura era extremamente macia, quase como a de uma bochecha suína preparada lentamente. Foi o prato mais surpreendente do jantar.

Para a sobremesa, dividimos uma mousse de chocolate branco com gel de maracujá, grué de cacau, caramelo salgado e pipoca. A combinação entre a doçura do chocolate, a acidez do maracujá e os elementos crocantes estava muito boa.

Escolhemos uma garrafa do Matinone Primitivo Basilicata IGT 2024, produzido pelas Cantine Crocco, de Montalbano Jonico. Até então, não sabíamos que a uva Primitivo também era cultivada e vinificada na Basilicata. Gostamos muito do vinho, intenso e frutado, que acompanhou bem os pratos de carne.

O serviço estava bastante demorado, aparentemente porque havia poucas pessoas atendendo. Mesmo assim, fomos tratados com simpatia. No final, uma das atendentes pediu que esperássemos porque gostaria de nos oferecer uma surpresa. Ela trouxe uma segunda sobremesa, que não havíamos visto no cardápio, formada por uma pequena composição com melão, macarons e trufas de chocolate.

A conta ficou em 134 euros para o casal. 

Depois do jantar, ainda contemplamos algumas partes de Matera iluminadas. Tínhamos vontade de caminhar um pouco mais, mas as muitas escadas e o longo percurso da tarde já nos haviam deixado bastante cansados. Assim encerramos nosso único e intenso dia em Matera.

22 de setembro de 2026 — De Matera a Roma, com uma nova visita a Pompeia

Saímos de Matera por volta das dez e meia da manhã e, depois de aproximadamente duas horas e meia de viagem, chegamos a Pompeia. Já havíamos visitado as ruínas em junho de 2014, acompanhados pela minha mãe, mas resolvemos repetir o passeio. Pouco depois daquela primeira visita, nossa câmera foi furtada em Capri e perdemos quase todas as fotografias da viagem, restando apenas algumas imagens feitas por ela.

Entramos novamente pela Porta Marina, mas Pompeia nos pareceu bastante diferente daquela que guardávamos na memória. O parque arqueológico continua recebendo novas escavações, restaurações e mudanças nos percursos de visitação, e encontramos várias casas muito bem preservadas, com afrescos, ambientes e detalhes que não lembrávamos de ter visto em 2014.

Na primeira viagem, visitamos o Lupanar, o antigo bordel, onde ouvimos a explicação de que as pinturas eróticas poderiam funcionar como uma espécie de catálogo visual para os clientes, inclusive os estrangeiros que não falavam latim. Dessa vez, o lugar não apareceu como uma das recomendações principais que recebemos e acabamos não retornando.

Tínhamos anotado algumas atrações consideradas essenciais: a Casa do Fauno, a Casa dos Vettii, as Termas do Fórum, os teatros e a Villa dos Mistérios. Conseguimos visitar as duas casas e as termas. A Casa do Fauno é uma das maiores residências de Pompeia e recebeu esse nome por causa da pequena estátua de bronze de um fauno dançando. Já a Casa dos Vettii impressiona pela quantidade e pelo estado de conservação dos afrescos que decoram seus ambientes.

As Termas do Fórum também foram interessantes por permitirem compreender a organização dos antigos banhos públicos romanos, com áreas destinadas às diferentes temperaturas e etapas do banho. Em várias outras casas pelas quais passamos era possível observar pinturas nas paredes e ter uma ideia da distribuição dos cômodos e da vida cotidiana da cidade.

Não conseguimos visitar a Villa dos Mistérios porque ela exigia uma modalidade de ingresso mais abrangente do que a que havíamos comprado e nosso tempo era limitado. Também não encontramos os teatros. Nosso percurso acabou sendo um pouco desorganizado: caminhávamos pelas ruas, entrávamos nos edifícios que estavam abertos e, algumas vezes, seguíamos os locais onde havia maior concentração de visitantes.

Em determinado momento, perguntamos onde estavam os famosos corpos de Pompeia e fomos orientados a seguir até o Orto dei Fuggiaschi, o Jardim dos Fugitivos. O nome vem dos treze indivíduos encontrados naquele local, que na época da erupção era uma área de vinhedos próxima às muralhas. Acredita-se que tentavam fugir da cidade quando foram atingidos pela fase mais destrutiva da erupção.

É importante esclarecer que o que vemos não são corpos carbonizados, mas moldes das vítimas. Na primeira fase da erupção do Vesúvio, em 79 d.C., Pompeia foi coberta por uma chuva de cinzas vulcânicas e pedras-pomes. O material acumulou-se sobre a cidade, provocando inclusive o desabamento de telhados. Posteriormente, correntes de gases, cinzas e fragmentos vulcânicos extremamente quentes alcançaram Pompeia.

Com o passar do tempo, os corpos soterrados se decompuseram, mas deixaram cavidades na camada de material vulcânico já endurecida. Durante as escavações, os arqueólogos encontraram esses espaços vazios. A técnica aperfeiçoada por Giuseppe Fiorelli no século XIX consistia em preencher as cavidades com gesso líquido. Depois que o material endurecia e a cinza ao redor era retirada, surgia o molde com a posição da vítima e, em alguns casos, detalhes das roupas e das expressões. Ossos originais podiam permanecer no interior do molde.

Vimos alguns desses moldes no Jardim dos Fugitivos, mas a apresentação mais completa estava na Palestra Grande, onde havia uma exposição permanente dedicada às vítimas e à técnica utilizada para produzir os moldes. Foi uma visita bastante interessante e ajudou a compreender melhor o que aconteceu durante a erupção. A Palestra era um grande espaço destinado principalmente às atividades físicas e à formação dos jovens.

Próximo à Palestra Grande fica o Anfiteatro de Pompeia, utilizado para combates de gladiadores e outros espetáculos públicos.

Imaginávamos que permaneceríamos nas ruínas por aproximadamente uma hora, mas a visita acabou durando duas horas e meia. Saímos bastante cansados, mas novamente impressionados com a dimensão e a preservação de Pompeia. Mesmo sendo nossa segunda visita, o passeio trouxe muitas descobertas e pareceu muito diferente da experiência anterior.

Voltamos ao carro e seguimos por mais duas horas e meia até Roma. Precisávamos devolver o veículo na estação Termini até as 20h e chegamos por volta das 19h30m. A devolução ocorreu sem problemas e, de lá, pegamos um táxi até o hotel.

Como visitaríamos o Vaticano no dia seguinte, escolhemos o Bloom Hotel Rome, localizado relativamente próximo. Foi a hospedagem mais simples desta viagem, com um padrão semelhante ao de um hotel de rede: funcional, sem muita sofisticação, mas adequado para uma estadia curta. O quarto tinha um tamanho razoável, uma boa cama e um banheiro pequeno. Para o objetivo daquela noite e da visita ao Vaticano, funcionou bem.

Link para avaliação do Tripadvisor

Assim que chegamos, deixamos as malas e fomos jantar no Ristorante Dai Miei, situado muito perto do hotel. Escolhemos o restaurante pela proximidade e pelas boas avaliações no Tripadvisor. Encontramos um ambiente agradável e uma cozinha baseada nos pratos tradicionais romanos.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, dividimos um queijo frito preparado com caciocavallo e pecorino.

Carmem pediu uma carbonara, que estava excelente,

e eu escolhi a tradicional coda alla vaccinara, uma rabada cozida lentamente ao estilo romano, acompanhada de batatas assadas. A carne estava muito macia e saborosa.

Para a sobremesa, dividimos uma crostata di ricotta e visciole, doce tradicional da culinária judaico-romana, feito com massa frolla, ricota e pequenas cerejas ácidas.

Acompanhamos o jantar com uma garrafa de Opimiam Syrah Lazio IGP, da Cantina Gaffino, produzido na região do Lácio.

A conta ficou em 72 euros. Como o restaurante não cobrou o pão nem o coperto, arredondamos o pagamento para 75 euros. 

23 de setembro de 2026 — Audiência com o Papa e caminhada pelo centro de Roma

Acordamos cedo porque tínhamos reservado nossa participação na Audiência Geral com o Papa Leão XIV, realizada na Praça de São Pedro. Chegamos por volta das 9h30m e imaginávamos que a reserva daria acesso a uma área mais restrita ou que precisaríamos retirar o ingresso que havia ficado disponível apenas na tarde do dia anterior.

Na prática, porém, não houve qualquer conferência. Havia pessoas com ingresso, outras sem ingresso algum e nós tínhamos apenas a confirmação da reserva. Todos estavam sendo autorizados a entrar normalmente na praça. Portanto, pelo menos naquela manhã, ter feito a reserva ou retirado o ingresso não produziu nenhuma diferença prática.

Mesmo chegando relativamente perto do início da audiência, conseguimos um lugar próximo à mureta por onde passaria o papamóvel. Quando o Papa percorreu a praça, passou muito perto de nós e, em determinado momento, pegou uma criança no colo. Foi um momento muito bonito e conseguimos vê-lo de uma distância pequena.

Depois do percurso pela praça, o Papa iniciou a audiência. Não se tratava propriamente de uma homilia, mas de uma catequese. Naquele dia, ele deu continuidade às reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, tratando da constituição pastoral Gaudium et spes e do sentido da atividade humana no mundo. Falou sobre o valor do trabalho e dos progressos técnicos, sociais e científicos, ressaltando que o verdadeiro desenvolvimento deve estar orientado pela caridade e pelo respeito à dignidade humana.

A cerimônia torna-se um pouco longa porque, depois da reflexão principal em italiano, são apresentados resumos e saudações em várias línguas, inclusive em português. Ao final, o Papa concedeu uma bênção em latim, estendida às famílias e aos objetos religiosos levados pelos participantes. 

Quando a audiência terminou, toda a região do Vaticano estava extremamente cheia. Pensávamos em visitar a Basílica de São Pedro, mas ela somente seria reaberta por volta de 13h. Como seria difícil fazer qualquer outro passeio naquele momento, retornamos ao Bloom Hotel, pegamos nossas malas e seguimos para a segunda hospedagem em Roma.

Chegamos por volta de meio-dia e meia ao Navona Colors Hotel, pertencente ao mesmo grupo do Bloom. Embora os dois tenham uma proposta semelhante, o Navona Colors nos pareceu de uma categoria superior. A localização é excelente, a poucos passos da Piazza Navona, e o quarto é maior e um pouco mais sofisticado, com cama confortável e banheiro também mais espaçoso.

Link para avaliação do Tripadvisor

Tivemos a vantagem de encontrar o quarto já preparado, mesmo tendo chegado antes do horário habitual de entrada. Havia ainda uma garrafa de vinho como cortesia de boas-vindas. Aproveitamos para descansar um pouco e tomar parte do vinho antes de retomarmos os passeios.

Por volta de 13h30m, saímos para uma longa caminhada pelo centro de Roma. Começamos pela Piazza Navona, que estava muito movimentada. Observamos novamente a Fontana dei Quattro Fiumi, de Bernini, e a Fontana del Nettuno, em uma das extremidades da praça.

Ali descobrimos uma igreja na qual nunca havíamos entrado, a Sant’Agnese in Agone (Santa Inês em Agonia). Construída em estilo barroco no local onde, segundo a tradição, Santa Inês teria sofrido o martírio, a igreja tem sua fachada associada principalmente ao trabalho de Francesco Borromini. No interior, destacam-se os mármores, as pinturas e a grande cúpula decorada por Ciro Ferri. Apesar de estar bastante cheia, foi uma das igrejas mais bonitas que visitamos naquele dia.

Seguimos até o Campo de' Fiori, onde estava funcionando uma feira. 

Depois, fomos até a Basílica de Sant’Andrea della Valle (Santo André do Vale), outra igreja que ainda não conhecíamos. Construída a partir do final do século XVI, ela possui uma das maiores cúpulas de Roma. Seu interior é marcado pelos afrescos de Giovanni Lanfranco na cúpula e pelas pinturas de Domenichino nos pendentes e na região do altar. A igreja também ficou conhecida por servir de cenário para o primeiro ato da ópera Tosca, de Puccini. Mais uma vez, encontramos um interior monumental e ricamente decorado.

Continuamos até o Panteão, mas a praça e as filas estavam tomadas por visitantes. Nas viagens anteriores, a entrada era gratuita; atualmente, é necessário comprar ingresso. Diante do tamanho da fila, limitamo-nos a observar o monumento e tirar algumas fotografias pelo lado de fora.

No caminho em direção à Fontana di Trevi, entramos na Igreja de Santo Inácio de Loyola, uma das grandes igrejas jesuítas de Roma. O principal destaque é a pintura da abóbada realizada por Andrea Pozzo, que utiliza a perspectiva para criar a impressão de que a arquitetura se prolonga em direção ao céu. A suposta cúpula da igreja também é uma ilusão: trata-se de uma pintura feita sobre uma superfície praticamente plana, mas que, observada do ponto adequado, parece possuir profundidade e volume.

Chegamos então à Fontana di Trevi, que também estava completamente lotada. Descobrimos outra mudança em relação às visitas anteriores: agora é preciso pagar para entrar no perímetro inferior e chegar próximo à borda da fonte. Havia uma nova fila somente para esse acesso. Preferimos permanecer na parte superior, de onde conseguimos observar a fonte.

Prosseguimos em direção à Piazza di Spagna e, antes de chegar à escadaria, entramos na Basílica di Sant’Andrea delle Fratte (Santo André do Horto). O interior conserva dois anjos originais esculpidos por Gian Lorenzo Bernini para a Ponte Sant’Angelo: o Anjo com a Coroa de Espinhos e o Anjo com a inscrição da cruz. As esculturas que hoje permanecem na ponte são cópias. A igreja também possui a capela da Madonna del Miracolo.

Perto da Piazza di Spagna, passamos pela Coluna da Imaculada Conceição e depois chegamos à famosa escadaria, também tomada por visitantes. Mesmo com a multidão, conseguimos fazer algumas fotografias.

Na região da Via dei Condotti, entramos na Chiesa della Santissima Trinità degli Spagnoli, construída no século XVIII para a ordem espanhola dos Trinitários. Seu interior tem formato elíptico e uma decoração barroca muito rica. No altar principal, a pintura de Corrado Giaquinto representa a Santíssima Trindade e a libertação de um escravizado, tema ligado à missão histórica da ordem de resgatar cristãos mantidos em cativeiro.

Seguimos depois pela Via del Corso, onde Carmem fez algumas compras. Já no caminho de volta ao hotel, entramos na Chiesa di Sant’Antonio dei Portoghesi, a igreja nacional portuguesa em Roma. Eu já havia assistido a uma missa ali em uma viagem anterior e quis retornar para fazer algumas fotografias.

Apesar de relativamente pequena, a igreja possui uma decoração barroca muito rica. Entre suas obras estão uma antiga imagem da Virgem com Santo Antônio, pinturas de Antonio Concioli e o monumento funerário De Souza, realizado por Antonio Canova. Foi uma última parada interessante antes de retornarmos ao hotel.

Depois de tantas igrejas barrocas ricamente ornamentadas, começou a surgir a impressão de que elas se pareciam um pouco entre si. Ainda assim, valeram as visitas.

À noite, nossa intenção era jantar no bairro de Trastevere. Tínhamos alguns restaurantes anotados, mas não conseguimos reserva em nenhum deles. Antes de seguir para lá, resolvemos passar pela Salumeria Roscioli, um restaurante muito conhecido, recomendado por vários brasileiros e também mencionado pelo Guia Michelin. Já havíamos tentado reservar pelo site, mas as primeiras datas disponíveis eram para aproximadamente dois meses depois.

Passamos pelo local sem expectativa de conseguir mesa, mas, como chegamos cedo, por volta das 19h, havia uma disponível. O restaurante trabalha com dois turnos, e precisaríamos liberá-la até as nove. Como o horário era suficiente para nós, desistimos de ir ao Trastevere e ficamos no Roscioli.

Fomos acomodados em uma pequena sala no piso inferior, cercada por prateleiras e garrafas de vinho. O espaço era reduzido, mas agradável e coerente com a proposta de uma salumeria e enoteca.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, dividimos o Maialino del Chianti, carne suína cozida lentamente e servida desfiada sobre pão crocante, acompanhada de mostarda mediterrânea e uma giardiniera caseira, crocante e temperada com vinagre. O prato era suave e diferente. Carmem achou os legumes um pouco avinagrados demais; eu gostei da combinação.

Como prato principal, Carmem escolheu o tortello di coda e pecorino, massa feita na casa e recheada com rabada e queijo pecorino, acompanhada de um molho leve de foie gras e mosto de figo ligeiramente picante. O molho tinha um toque adocicado, e era possível perceber suavemente o sabor do foie gras. O gosto da rabada estava bastante discreto, mas Carmem gostou muito do prato.

Eu pedi a “La Gricia” di Stefano, preparada com rigatoni, guanciale artesanal, Pecorino Romano DOP e uma combinação de três tipos de pimenta selecionados pelo Roscioli. O guanciale estava crocante e um pouco mais tostado. O prato era ligeiramente salgado, mas muito saboroso.

Para a sobremesa, dividimos um tiramisù. Foi, sem dúvida, o melhor da viagem e ficou no mesmo nível dos melhores que já havíamos provado.

Acompanhamos o jantar com uma garrafa de Abelos Bio 2015, da Azienda Biologica De Sanctis. Trata-se de um Frascati Superiore DOCG produzido na região do Lácio com Malvasia Puntinata e Bombino Bianco. O vinho estava muito bom e acompanhou bem toda a refeição.

Antes de trazerem a conta, recebemos como cortesia dois pequenos biscoitos com nozes e chocolate. Lembravam um pouco cantucci, embora fossem mais macios e tivessem outra preparação. Também estavam muito gostosos.

A conta ficou em 107 euros para o casal.

Voltamos caminhando para o hotel e passamos novamente pelo Campo de' Fiori e pela Piazza Navona, agora iluminados.

24 de setembro de 2026 — Museus Capitolinos, Gueto Judaico e Trastevere

Pela manhã, pegamos um táxi até as proximidades do Monte Capitolino e subimos pela escadaria que leva à Piazza del Campidoglio. Nosso principal programa do dia era visitar os Museus Capitolinos, seguindo o roteiro com as obras mais importantes que havíamos preparado anteriormente.

Os Museus Capitolinos são considerados o museu público mais antigo do mundo. Sua origem remonta a 1471, quando o papa Sisto IV doou ao povo romano um conjunto de antigos bronzes que até então ficavam no Palácio de Latrão. Atualmente, o complexo ocupa principalmente o Palazzo dei Conservatori e o Palazzo Nuovo, edifícios situados em lados opostos da Piazza del Campidoglio e interligados por uma passagem subterrânea.

A visita começou com os enormes fragmentos da estátua colossal do imperador Constantino. No pátio estão preservados a cabeça, uma mão, os pés e outras partes da escultura original, que teria entre dez e doze metros de altura. A estátua utilizava a técnica acrolítica: as partes visíveis do corpo eram feitas em mármore, enquanto o restante provavelmente possuía uma estrutura interna revestida por outros materiais.

No jardim da Villa Caffarelli, dentro do complexo do museu, há uma reconstrução em tamanho natural do Colosso de Constantino, com aproximadamente treze metros de altura. Vimos a reconstrução de longe e deixamos para observá-la melhor depois, mas acabamos não retornando. Tirei a imagem abaixo do site do museu.

Outro dos grandes destaques foi a estátua equestre original de Marco Aurélio, exposta em um amplo espaço coberto. A versão que ocupa o centro da Piazza del Campidoglio é uma réplica. O original foi transferido para o interior do museu para ficar protegido das condições climáticas. A escultura sobreviveu ao longo dos séculos, em parte porque durante muito tempo se acreditou que representasse o imperador Constantino, associado à legalização do cristianismo no Império Romano.

Na mesma área, vimos a Lupa Capitolina, um dos símbolos mais conhecidos de Roma, acompanhada pelas figuras de Rômulo e Remo. A loba exposta no museu é a original; as representações encontradas no exterior são cópias.

Também observamos grandes fragmentos de uma estátua colossal de bronze de Constantino, entre eles a cabeça, a mão e o globo que o imperador segurava.

Seguimos pelas salas históricas do Palazzo dei Conservatori, decoradas com grandes ciclos de afrescos relacionados às origens de Roma. Entre as muitas esculturas, encontramos o Spinario, pequeno bronze representando um jovem retirando um espinho do pé. A peça fazia parte do primeiro conjunto doado por Sisto IV em 1471.

Também visitamos a Pinacoteca Capitolina, com pinturas de grandes artistas dos séculos XVI e XVII. Entre as obras de Caravaggio, vimos A Boa Ventura, na qual uma jovem cigana lê a mão de um rapaz enquanto discretamente retira seu anel, e São João Batista, representado como um jovem acompanhado por um carneiro.

Na mesma sala, porém, uma pintura de dimensões muito maiores chamou ainda mais nossa atenção: o Sepultamento de Santa Petronila, de Guercino. A enorme tela foi originalmente produzida para a Basílica de São Pedro, levada para Paris pelas tropas napoleônicas e posteriormente recuperada para a Itália por Antonio Canova.

Passamos depois pela área do Tabularium, edifício romano que servia como arquivo público. A Galleria Lapidaria reúne numerosas inscrições e epígrafes que ajudam a compreender aspectos da vida romana, como o direito, o trabalho, os ritos funerários, as atividades militares e as homenagens aos imperadores.

Inicialmente, não encontramos o acesso ao mirante, mas depois descobrimos uma escada lateral no Tabularium que conduz a uma galeria aberta. Dali tivemos uma das vistas mais bonitas do Fórum Romano, observando suas ruínas a partir do alto e de um ângulo bastante diferente daquele das visitas convencionais ao sítio arqueológico.

A passagem subterrânea levou-nos ao Palazzo Nuovo, do outro lado da praça. Ali encontramos outra concentração impressionante de esculturas antigas. Uma delas foi o Marforio, enorme divindade fluvial reclinada junto a uma fonte no pátio. Era a figura que, durante a visita, nos pareceu uma espécie de rei do mar. O Marforio é também uma das chamadas “estátuas falantes” de Roma, nas quais eram afixadas mensagens anônimas, geralmente satíricas e críticas às autoridades.

Vimos ainda o busto da Medusa, de Gian Lorenzo Bernini. Diferentemente das representações tradicionais da cabeça decepada de Medusa, Bernini criou um verdadeiro busto, mostrando-a viva no momento em que parece tomar consciência de sua própria transformação.

No Palazzo Nuovo também estão a Vênus Capitolina e o Gálata Moribundo. A Vênus Capitolina, que inicialmente relacionamos à Vênus de Milo, representa a deusa surpreendida durante o banho, tentando cobrir o corpo. Ao lado estão o tecido e o recipiente utilizados na cena.

O Gálata Moribundo mostra um guerreiro ferido nos instantes finais de vida, com uma combinação muito expressiva de sofrimento, dignidade e esforço físico.

Próxima ao Gálata está a escultura de Amor e Psiquê, o jovem casal que vimos abraçado diante de uma das janelas. Trata-se de uma cópia romana de um grupo escultórico helenístico inspirado na história de amor narrada por Apuleio.

O museu é muito maior do que aparenta. Percorremos diferentes andares, salas, corredores e a passagem subterrânea entre os dois palácios. Além das obras principais, vimos numerosos bustos de imperadores, sarcófagos, mosaicos, inscrições, pinturas e esculturas. A visita foi bastante cansativa, mas também uma das mais interessantes de Roma.

Ao sairmos, caminhamos pela Piazza del Campidoglio, cujo desenho atual está ligado ao projeto de Michelangelo. Observamos do lado de fora as réplicas de algumas das obras que havíamos acabado de ver em suas versões originais no museu.

Descemos depois em direção ao antigo Gueto Judaico, passando pelo Teatro de Marcelo, construção iniciada no período de Júlio César e concluída por Augusto, e pelo Pórtico de Otávia, que durante séculos esteve ligado à história da comunidade judaica de Roma.

Para o almoço, escolhemos o Tribuna Campitelli, localizado na Via della Tribuna di Campitelli, na borda do antigo Gueto e próximo ao Teatro de Marcelo. Posteriormente descobrimos que o restaurante também fazia parte da seleção do Guia Michelin.

Link para avaliação do Tripadvisor

Carmem escolheu uma melanzana alla parmigiana, apresentada entre os antepastos, mas pediu que fosse servida como seu prato principal.

Eu pedi um tonnarello cacio e pepe.

Os dois pratos estavam muito bons, assim como o pão preparado pela própria casa.

Acompanhamos o almoço com duas taças do Garganega 2025, da Cantina Tredici, um vinho branco produzido com a uva Garganega, variedade tradicional do Vêneto. A conta ficou em 64 euros para o casal.

Depois do almoço, caminhamos um pouco mais pelo Gueto Judaico e seguimos até a Ponte Fabrício, a ponte romana que liga a margem esquerda do Tibre à Ilha Tiberina. Construída no século I a.C., é considerada a mais antiga ponte romana de Roma que permanece em uso.

Quando chegamos à ilha, já estávamos bastante cansados. O roteiro inicialmente previsto ainda incluía uma caminhada em direção ao Monte Aventino, mas decidimos encerrar aquela parte do passeio. Pensávamos em voltar de táxi, mas não conseguimos encontrar nenhum nas proximidades. Retornamos ao restaurante e pedimos ajuda. Depois de cerca de quinze minutos e de tentativas com três companhias diferentes, nem mesmo o restaurante conseguiu chamar um carro.

Como a distância não era tão grande, resolvemos voltar caminhando. Passamos pela Piazza Venezia, diante do Monumento Nacional a Vittorio Emanuele II, onde se encontra a grande estátua equestre do primeiro rei da Itália unificada.

Continuamos a caminhada, paramos em algumas lojas para as compras que Carmem queria fazer e finalmente retornamos ao hotel.

À noite, apesar do cansaço, decidimos conhecer Trastevere e, dessa vez, fomos de táxi. Nossa primeira tentativa foi o famoso restaurante Tonnarello, mas encontramos uma fila gigantesca, com aproximadamente cinquenta ou sessenta pessoas.

Durante o trajeto de táxi, havíamos visto outro restaurante com o mesmo nome em uma parte um pouco mais alta do bairro. Perguntamos e descobrimos que se tratava do Tonnarello Pop, pertencente ao mesmo grupo e com uma proposta semelhante. A fila era muito menor e, depois de aproximadamente quinze minutos, conseguimos uma mesa.

O Tonnarello Pop é um restaurante simples e bastante movimentado, frequentado por muitos turistas e especializado em massas e pratos da cozinha romana.

Link para avaliação do Tripadvisor

Como entrada, pedimos uma pinsa com presunto.

A pinsa diferencia-se da pizza principalmente pela massa e pelo formato. Geralmente é oval, preparada com uma massa de hidratação mais elevada, fermentação prolongada e, em muitas versões, uma combinação de farinhas. O resultado tende a ser crocante por fora e mais leve e aerado por dentro. A nossa era grande e acabou tornando a refeição bastante farta.

Como prato principal, Carmem pediu polpette com molho de coda alla vaccinara, acompanhadas de batatas e chicória. As almôndegas estavam muito saborosas, e o molho inspirado na tradicional rabada romana deu bastante intensidade ao prato.

Eu escolhi uma massa all’amatriciana, preparada com molho de tomate, guanciale e queijo pecorino. Estava gostosa, embora eu tenha achado algumas versões que já comemos no Brasil muito mais saborosas.

Para beber, escolhemos um Passera e Scopaiola Nero di Troia 2024, da Masseria Spaccafico. Era um vinho tinto Puglia IGP e nossa primeira experiência com a uva Nero di Troia, uma das variedades tradicionais da Puglia. Gostamos do vinho e achamos que acompanhou bem os pratos.

Como as porções eram muito grandes, não pedimos sobremesa. A conta ficou em 80,50 euros para o casal.

Depois do jantar, voltamos caminhando para o hotel. Passamos pela região da Basílica de Santa Maria in Trastevere, que estava iluminada, atravessamos a ponte e voltamos para o hotel. 

25 de setembro de 2026 – O último dia em Roma

Durante vários dias, a previsão indicava chuva para essa sexta-feira. De uma hora para outra, porém, o tempo mudou completamente: tivemos sol e céu limpo durante todo o dia. Aproveitamos a surpresa e decidimos fazer o passeio ao longo do rio Tibre.

Saímos caminhando até a Ponte Umberto I, próxima do hotel, de onde se tem uma das vistas mais bonitas da cúpula da Basílica de São Pedro.


Na outra margem, fica a belo edifício da Corte Suprema de Cassação (Corte Suprema di Cassazione), a instância máxima do Poder Judiciário ordinário na Itália.

Depois, seguimos pela margem do rio até a Ponte Sant’Angelo, diante do castelo. Chegamos a pensar em visitar o Castel Sant’Angelo, mas o lugar estava muito cheio e preferimos continuar o passeio.

Atravessamos a ponte e descemos para a margem baixa do Tibre. Esse trecho, no entanto, não nos pareceu tão interessante quanto imaginávamos. O nível da água estava baixo, havia muitas algas e a paisagem não tinha o mesmo encanto visto das pontes. Assim, já na altura da Ponte Vittorio Emanuele II, resolvemos subir novamente.

Foi então que percebemos que estávamos a menos de um quilômetro do Vaticano. Como não havíamos conseguido visitar a Basílica de São Pedro depois da audiência geral com o papa, decidimos aproveitar a oportunidade. Ao chegarmos à praça, encontramos uma fila gigantesca. Ainda assim, resolvemos arriscar e, depois de cerca de meia hora — boa parte dela sob o sol forte —, conseguimos entrar.

A Basílica de São Pedro impressiona desde o primeiro instante por suas dimensões e pela riqueza das obras. A construção do edifício atual começou em 1506, por iniciativa do papa Júlio II, e terminou em 1626, substituindo a antiga basílica erguida no século IV pelo imperador Constantino. Ao longo de mais de um século, trabalharam no projeto alguns dos maiores arquitetos do Renascimento, entre eles Bramante, Rafael, Michelangelo e Carlo Maderno. Apesar das sucessivas mudanças de projeto, manteve-se sempre como centro simbólico e arquitetônico o lugar onde, segundo a tradição e os achados arqueológicos, está o túmulo do apóstolo Pedro. 

No coração da basílica, sob a imensa cúpula projetada por Michelangelo, encontra-se o altar papal, marcado pelo monumental baldaquino de bronze de Gian Lorenzo Bernini. Suas colunas retorcidas conduzem o olhar para o altar e assinalam precisamente o local da sepultura de São Pedro.  Tudo é grandioso: as naves, as capelas, os mosaicos, as esculturas e os altares, entre eles a Capela do Santíssimo Sacramento, reservada à oração. Mesmo com a basílica lotada, a visita foi muito bonita e emocionante.

Também reencontramos a famosa estátua de bronze de São Pedro sentado, atribuída ao escultor medieval Arnolfo di Cambio e datada do século XIII. Quando estivemos ali em 2008, era possível aproximar-se e passar a mão em seu pé direito — um gesto tradicional de devoção, acompanhado muitas vezes de uma oração ou de um pedido. O pé está visivelmente desgastado e polido pelos beijos e toques de milhões de peregrinos ao longo dos séculos. Desta vez, porém, a estátua estava isolada e não pudemos repetir o gesto. 

Uma das obras que mais nos chamou a atenção foi o monumento funerário do papa Alexandre VII, realizado por Bernini e seus colaboradores entre 1671 e 1678. O papa aparece ajoelhado em oração, tendo abaixo dele quatro figuras femininas que representam virtudes: Caridade, Verdade, Prudência e Justiça. As duas figuras mais visíveis são a Caridade, acompanhada por uma criança, e a Verdade, que apoia o pé sobre um globo e segura um sol dourado.

No centro da composição, aquilo que à primeira vista parece um grande lençol dobrado é, na verdade, uma linda cortina esculpida em jaspe siciliano. De baixo dela emerge um esqueleto de bronze dourado, representação da Morte, segurando uma ampulheta. É um lembrete de que o tempo se esgota e de que nem mesmo o poder de um papa está acima da mortalidade. A porta existente sob o monumento já fazia parte do local, e Bernini a incorporou à obra, transformando-a simbolicamente na passagem para a eternidade. 

Na parte externa da basílica, vimos ainda a grande escultura de bronze escuro que representa numerosas pessoas comprimidas dentro de uma embarcação. A obra chama-se Angels Unawares — em português, algo como Anjos sem que o soubéssemos — e foi criada pelo artista canadense Timothy Schmalz. Inaugurada pelo papa Francisco em 2019, reúne 140 migrantes e refugiados de diferentes épocas, culturas e religiões. No meio da multidão surgem asas de anjo, numa referência à passagem bíblica que recomenda acolher os estrangeiros, pois alguns, sem saber, podem ter acolhido anjos. 

Depois da visita, retornamos à região das pontes, mas já estávamos bastante cansados e resolvemos voltar ao hotel para descansar.

No fim da tarde, saímos novamente, desta vez em direção à Piazza Cavour. Carmem ainda queria fazer algumas compras, e seguimos também pela Via Cola di Rienzo, uma avenida larga e comercial, com muitas lojas e bem menos congestionada por turistas do que as ruas do centro histórico. Essa região pertence ao bairro de Prati, situado do outro lado do Tibre, próximo ao Vaticano. Com suas ruas largas e regulares, edifícios elegantes e comércio variado, Prati transmite uma sensação diferente da Roma antiga, mais organizada e tranquila.

Ali conhecemos a Enoteca Costantini, na Piazza Cavour, que possui uma enorme seleção, com milhares de rótulos e uma grande adega subterrânea. Encontramos bons vinhos e preços adequados ao que procurávamos, fazendo dela uma excelente indicação para quem quiser comprar vinhos em Roma sem necessariamente buscar raridades ou garrafas caríssimas. 

Voltamos ao hotel e, mais tarde, saímos para nosso último jantar da viagem. Escolhemos, pelas avaliações do Google, o restaurante Casa Maddalena.

De entrada, pedimos uma burrata com tomates confit, acompanhada de focaccia.

Como prato principal, ambos escolhemos o abbacchio alla scottadito: costeletas de cordeiro temperadas com alecrim, alho e pimenta-do-reino, servidas com batatas assadas, que estavam muito gostosas.

Para acompanhar, tomamos um Remo Farina Montecorna Valpolicella Ripasso Classico Superiore 2023, vinho do Vêneto que combinou muito bem com o cordeiro. Como nenhuma das sobremesas nos despertou interesse, encerramos por ali. 

A conta total do casal foi de 98,50 euros.

Ao sairmos do restaurante e caminharmos alguns metros, tivemos uma surpresa: estávamos praticamente diante do Panteão. Não havíamos percebido que o restaurante ficava tão perto. Tiramos algumas fotografias e ainda encontramos uma jovem cantando música clássica na praça. A voz, a fachada iluminada do Panteão e o movimento da noite romana criaram um momento especialmente bonito.

26 de setembro de 2026 – Retorno a Brasília

Pegamos o voo da LATAM em Roma às 13h05m, com conexão em Guarulhos. Chegamos em Brasília em torno de meia noite e meia.